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4 de fevereiro de 2019

UM ARTISTA DO MUNDO FLUTUANTE, DE KAZUO ISHIGURO


Olá! ♥️
Carnaval ainda nem chegou, então o ano nem começou direito. Vou apresentar mais uma leitura de 2018 e contar para você minhas impressões. Antes, quero deixar claro: ler Kazuo Ishiguro para mim foi um caminho sem volta. Depois que li um livro não quis mais parar e as edições da Companhia das Letras também não deixam a desejar. 


Masuji Ono é um um artista aposentado. Sempre foi apaixonado pela pintura, mas conviveu com o olhar preconceituoso de seu pai em relação a arte. No entanto, apaixonado pelo que fazia, o homem decidiu enfrentá-lo e seguir com seu amor. Masuji foi um pintor renomado e durante seu desenvolvimento criativo, lutou contra as amarras da arte tradicional japonesa para dar lugar a uma produção propagandística a serviço do país, sobretudo ao longo da Segunda Guerra Mundial. E agora enquanto o Japão tenta se recuperar das atrocidades causadas pela guerra, reconstruindo espaços com um olhar esperançoso para o futuro, Ono vive uma vida calma cuidando de sua casa e de seu jardim, além de passar algumas noites bebendo ao lado de velhos amigos e de morar com a filha.  Quando o noivo dela decide não mais casar às vésperas do casamento, Masuji começa a fazer uma viagem pelo passado e revisitar sua vida, analisar seus atos e o que herdou de seus descendentes para compreender quem é nesse momento atual de sua vida.

Ishiguro é o tipo de autor que talvez não atinja com louvor a todos o públicos, mas uma coisa não se pode negar: sua narrativa é reconhecível. O autor tem um jeito especial só dele, então sua personalidade como autor está marcada em cada uma de suas narrativas. Isso faz dele um autor renomado e especial e um dos poucos que conseguem tomar a atenção do seu leitor com um texto reflexivo e poucos diálogos.

Em "Um artista do mundo flutuante", Ishiguro só reafirma sua originalidade e nos apresenta um texto reflexivo que nos leva a um passeio pelas "moradas" de um artista renomado e todas as situações vividas na família, quando ainda era criança, por exemplo, e na vida social e profissional. Característica presente em todas as obras que li do autor, a auto-reflexão como um ato de entender seu momento atual e a pessoa que se tornou está presente no texto, que mais uma vez coloca na mesa questionamentos pertinentes sobre a vida e sobre como nossas atitudes e as atitudes de nossos antepassados podem influenciar nossa vida e nossa personalidade.
"[...] devo dizer que acho difícil entender como qualquer homem que valorize seu amor-próprio procure evitar por longo tempo a responsabilidade de seus atos passados."
Além de trazer à tona o olhar para o passado e a reflexão na forma como atua na vida das filhas o texto de Ishiguro também destaca a questão do preconceito, da mulher submissa, das desigualdades e das problemáticas sociais, já que estamos num cenário pós-guerra, momento de reconstrução no país. O autor também não abre mão do tom nostálgico que é uma marca nas suas histórias.

Quando escrevi resenha dos livros anteriores que fiz a leitura (O Gigante Enterrado e Não me Abandone Jamais) eu falei sobre os capítulos longos e lentos, reflexo das reflexões feitas pelo personagem e pelos importantes detalhes que nos situam no local em que o personagem está. Isso também é presente neste livro e como disse anteriormente não irá agradar a todos os leitores, mas se o novo leitor se permitir embarcar nessa leitura e conhecer esse mundo flutuante de coração aberto vai perceber o quanto a reflexão do personagem vai despertar o desejo da auto-reflexão também.

| Leia a resenha de O Gigante Enterrado |
| Leia a resenha de Não me Abandone Jamais |

Um Artista no Mundo Flutuante é um livro que te provoca a repensar atitudes e fazer uma análise pessoal do seu passado e de suas atitudes naquele período também. É um livro acima de tudo sobre o ser o humanos e suas imperfeições, seu erros, seus acertos e sua luta diária pela sobrevivência num ambiente caótico. 

Bjão,
Di ♥️


14 de abril de 2016

‘Não Me Abandone Jamais’, Kazuo Ishiguro


todo mundo!

Como estão vocês e suas leituras? Estou numa correria muito gostosa com as minhas, mas muito gratificante também. Não posso reclamar porque até então só li livros muito bons ou médios, mas nenhum ainda classificado como ruim. Sendo assim, estou no lucro.

E por falar em livro muito bom preciso contar para vocês sobre mais uma leitura que fiz, de mais um livro do Kazuo Ishiguro. Conheci a escrita do autor este ano – quando li “O Gigante Enterrado” |RESENHA AQUI| - e fiquei apaixonado. Quando terminei a leitura de Não me Abandone Jamais, fui arrebatado por uma onda de emoção inexplicável, por isso a demora de postar a resenha. Mas agora está aqui para vocês.


 Publicado no Brasil pela primeira vez em 2010, também pela editora Companhia das Letras, “Não Me Abandone Jamais” conta a história de Kathy e seus amigos Tommy e Ruth. Eles se conheceram ainda na infância, quando frequentavam a mesma escola, a famosa e querida Hailsham, um colégio do interior da Inglaterra. Lá eles viveram aventuras e brincadeiras de criança, descobriram sentimentos de amor e amizade, e juntos descobriram também que há muito mais do que se pode ver naquele lugar.  Há algo de diferente nas crianças de Hailsham; elas já nasceram com seus destinos traçados, eles irão apenas crescer para ser “cuidadores” e “doadores”. Não alcançarão nem mesmo a meia-idade. Mas o que é ser um doador? O que é ser cuidador? Esses são alguns dos segredos que vamos descobrir com Kathy durante a leitura dessa obra prima que nos foi dada pelo Ishiguro.


A história se passa na Inglaterra e é contada em primeira pessoa, sob a visão de Kathy, que tem 31 anos e está às vésperas de ser doadora. Kathy narra toda sua trajetória, desde quando entrou em Hailsham, como conheceu Tommy e Ruth, as descobertas e questionamentos acerca dos costumes e das pessoas que trabalhavam no colégio. É uma narrativa que não segue o tempo cronológico, nos remete perfeitamente a uma conversa entre amigos e Kethy nos conta o que aconteceu no passado, ao mesmo tempo reflete sobre uma situação sob um novo olhar, concluindo coisas novas, fazendo nós leitor refletir até chegarmos juntos a uma conclusão. É uma narrativa que evolui tanto quanto os personagens.

Quando comecei a ler tive a mesma sensação de quando comecei O Gigante enterrado: - “a narrativa é devagar, vou demorar um século para terminar esse livro”. Mas gente, eu me enganei! Como já disse anteriormente é uma narrativa que parte da simplicidade para a grandiosidade. É evolutiva e quem está lendo cresce junto com os personagens, até chegarmos ao ápice da emoção e da comoção.

É uma história que nos mostra pessoas talentosas e inteligentes, que poderiam ter uma vida inteira de sucesso se não fosse a linha já traçada para o destino de cada uma delas. Foram criadas unicamente para um propósito e é isso que nos leva a um lugar melancólico e cinzento, principalmente porque estamos enxergando a vida deles de fora. Mas não é apenas um livro que apresenta uma história triste e melancólica. O autor nos convida a refletir, nos presenteia com a possibilidade de aprender mais sobre quem somos, o que desenvolvemos e o que fazemos de nossas vidas.  Há um enredo muito rico e mensagens para levar para a vida e que estão encontra implícitas e por vezes totalmente explicitas no texto do Ishiguro.

Lendo mais esse livro do autor, percebi elementos que são característicos das suas obras - eu gosto e funciona muito bem nas histórias dele, inclusive. Um desses elementos é a REFLEXÃO. Seja numa narrativa de terceira pessoa ou em primeira pessoa, a mente reflexiva dos personagens passeando pelo tempo, refletindo situações e ações do passado, chegando a uma nova conclusão ou a um novo questionamento é um elemento marcante.


Outro elemento que funciona muito bem e que está também em “Não Me Abandone Jamais”, é a NOSTALGIA. A lembrança de pequenos gestos, de objetos simples, de cenas que parecem não ter significado algum aos olhos de quem vê de fora, mas que preenche o personagem de alguma forma. Os personagens do Ishiguro são traçados com essa característica – assim também foi com Axl e Beatrice em O Gigante enterrado.

Por último preciso destacar o amor sendo colocado à prova. Houve uma situação neste livro que me fez lembrar muito o livro anterior. Os personagens são “obrigados” a provar o amor que tem pelo outro (no sentido de relação amorosa mesmo), a partir de algum elemento subjetivo: seja através de perguntas sobre o passado, um olhar que brilha, a maneira como fala do outro com ternura, ou através da inspiração que se tem por estar apaixonado e que se reflete nas coisas que produz.

“ (...) Madame tem uma galeria, em algum lugar, repleta de trabalhos nossos, desde que éramos pequenos. Vamos supor que apareça um casal se dizendo apaixonado. Ela tem como encontrar os trabalhos que eles produziram durante vários e vários anos. Tem como ver se batem. Se combinam. Não se esqueça, Kath, de que as coisas que ela tem revelam a nossa alma. E ela pode decidir, sozinha, o que é um bol relacionamento e o que é uma paixonite boba.” Pág. 215

Se eu pudesse definir Não me abandone jamais em uma palavra, diria que é uma obra sublime. Uma história que agrupa os sentimentos mais bonitos e necessários na vida de uma pessoa – amizade, amor, companheirismo, simplicidade e sentimentalismo. Um enredo tocante, com personagens bem traçados, que se apegam a coisas simples, a situações simples da vida e que nos mostra que as maiores riquezas que podemos ter na vida são as boas lembranças de coisas que nos fizeram e nos fazem feliz até hoje.

Não me abandone jamais é uma leitura necessária para quem já qualquer outro livro do Kazuo Ishiguro.

Espero que busquem saber mais sobre o livro, que deem uma chance porque realmente vale apena.
Bjux 1.000

Diih

4 de março de 2016

O Gigante Enterrado, Kazuo Ishiguro


“(...) Prometa, princesa, que não vai esquecer o que sente por mim no fundo do seu coração neste momento. Pois de que adianta uma lembrança voltar da névoa se for apenas para apagar outra? Você me promete isso, princesa?”
Olá!

Hoje vou contar para vocês sobre O Gigante enterrado, narrativa do autor Kazuo Ishiguro, que também escreveu “Os resíduos do dia” e “Não me abandone jamais” – minha próxima leitura -, ambos publicados também pela Editora Companhia das Letras.

Gostaria de deixar claro que em todas as resenhas que escrevo levo em consideração minha leitura, livre de qualquer influência. Portanto, posso ter uma visão diferente das demais, contanto que seja coerente. O meu papel aqui no blog é passar para o leitor minhas impressões e opiniões, acerca da história, de maneira justa e verdadeira, respeitando a editora, que me cede os livros e confiam no meu trabalho, mas acima de tudo sendo fiel a mim porque só assim serei fiel a vocês. Ok?


O Gigante enterrado é um livro que carrega em si um enredo simples, mas muito bem desenvolvido. O cenário onde a narrativa se desenvolve é a Grã-Bretanha num cenário pós-guerra entre bretões e saxões, e após a queda do Rei Arthur – figura lendária, que de acordo com as histórias medievais comandou a defesa contra os invasores saxões no fim do século V. Nesse cenário caótico a população se encontra amedrontada, à mercê dos ataques de ogros e de uma névoa que causa esquecimento na mente das pessoas. Axl e Beatrice, um casal de idosos saxões, sofre com esse esquecimento, pois nem sequer se lembram do rosto do filho quando decidem sair de onde estão para procurá-lo. Cheios de dúvidas, lembranças vagas, mas sem perder as esperanças, os velhinhos partem de onde estão numa caminhada lenta, mas cheia de indagações e descobertas. Conhecem o senhor Gawain, fiel soldado do Rei Arthur, um garoto misterioso que se chama Edwin, além do guerreiro – um rapaz muito confiante de si e muito inteligente – Wistan, que segue sua jornada a fim de matar a dragoa que afunda o passado dos habitantes daquela população no esquecimento. Será que é uma boa ideia acabar com a névoa do esquecimento e relembrar o passado? Será que isso poderia colocar o amor de Axl e Beatrice à prova e destruir a paz que vive naquele lugar agora?

Narrado em terceira pessoa O Gigante Enterrado é um livro cativante, que apesar da simplicidade da narrativa e dos acontecimentos leva o leitor a um cenário brilhante, onde fatos históricos e fantasia dialogam perfeitamente. Os personagens são intrigantes e conquistam você desde o primeiro momento como, por exemplo, os protagonistas Axl e Beatrice, tão cumplices e gentis, que passam a ser um molde de união feliz e estável de um casal, mas num dado momento também um questionamento sobre como um relacionamento pode manter-se tão perfeito durante tanto tempo. Será que existe algo por trás daquele chamado de “princesa” que o marido faz para sua esposa a todo o momento?  

O uso de metáforas está presente na maior parte da história, que nas entrelinhas nos apresentam mensagens sobre amor, sobre o que fica depois da guerra e sobre a importância da memória, seja ela sobre a real identidade de quem somos ou dos grupos que vivem ao nosso redor. Além disso, a importância do perdão e o reflexo do ódio presente na sociedade estão explicitamente “desenhados” nas linhas que compõem a narrativa e que de alguma forma representa nossa realidade.


E o que dizer do Gigante enterrado? Ao ler o título do livro e à medida que avança na leitura você pode imaginar que uma narrativa que se envereda pelo mundo da fantasia em que fadas, ogros e outros seres folclóricos estão inseridos na trama, existirá também um gigante fazendo seu papel em algum capítulo. E você não está errado em pensar isso, embora esse gigante seja uma metáfora presente de maneira sutil em todos os capítulos e explícito nos momentos finais do livro. E essa será uma das grandes reflexões sobre a história.

Engana-se quem pensa que a leitura será sempre um mar de rosas. Apesar de o livro ser muito bom e cativante, como já foi dito, o enredo não conta com reviravoltas empolgantes, do tipo que prende completamente o leitor. O autor aposta na simplicidade dos fatos e nos pequenos detalhes que por sinal merecem toda atenção. Demorei um pouco para fazer a leitura porque de fato achei que em vários momentos a leitura ficou chata. No entanto, valeu a pena voltar e prestar atenção e ler até o fim.

Por fim, o Gigante enterrado – que ganhou uma edição maravilhosa da editora Companhia das Letras - é um livro para ser lido sem pressa, de coração aberto e com atenção. Apesar de ter uma narrativa simples há muito por trás de cada capítulo e dos diálogos dos personagens. O autor transforma simplicidade em algo grandioso e essa foi uma das características que mais me atraiu em sua obra, com essa leitura que marca meu primeiro contato com o Ishiguro.

Leiam, reflitam e se apaixonem.
Bjux 1.000!

     
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