♥ Oi,
gente querida!
Que tal uma crônica para
hoje? Mais um texto autoral, que eu espero que vocês recebam com carinho.
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Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) |
***
Não importa para onde
você olhe, é preciso olhar com vontade, vislumbrar o horizonte, analisar os
pássaros, perceber detalhes. E qual o problema se os detalhes forem sórdidos, como
uma folha caindo do galhinho de uma árvore enquanto você olha para o lado de
relance em algum outono de sua vida?
Por muito tempo escutei
pessoas dizendo que não se deve contentar com pouco e que não importa se um
pássaro acabou de pousar em algum lugar, ou um pingo caiu lentamente na poça de
água, porque na hora da pressa coisas como essa não vão pagar meu salário. Mas
você já parou para pensar que talvez o encontro das águas e o pássaro estático
em algum lugar possa se transformar numa imagem perfeita e inspiradora em algum
desses dias loucos do nosso cotidiano? Talvez não, não é mesmo? Afinal, você
está ocupado demais lendo alguma apostila da faculdade, acompanhando alguma
conversa em tempo real, em alguma rede social, sem perceber a cena que ocorreu
há poucos segundos ao seu lado. Um rapaz acabou de entregar uma flor à sua
companheira e eles nem precisaram encostar seus lábios para selar o momento. Olha
só, eles apenas se olharam de uma forma tão especial, mas tão especial, que o
silêncio, misturado a um olhar que brilhava como uma constelação, falou mais do
que mil palavras. Talvez o beijo venha depois, mas você não viu, talvez até
pudesse ter tido alguma opinião sobre isso ou talvez, quem sabe, seria motivo
para algum texto bonito, ou alguma história carinhosa para contar a alguém. E olha,
histórias como essa costumam ser tão raras ultimamente!
Aliás, há tantas coisas
que não se vê com muita frequência, que eu acho que seria interessante se a gente
pudesse observar mais o que acontece ao nosso redor. É tanta coisa, que a gente
até se perde. Por exemplo, outro dia vi um senhor caminhando e lendo um livro,
no meio da cidade. O trânsito estava caótico, as buzinas dos carros faziam um
barulho daqueles, as pessoas corriam como se estivessem prestes a entrar no
mundo de Nárnia, e só tivessem aquela chance – e claro que eles deveriam
correr, afinal, restava apenas um minuto para o portal se fechar –, mas o
senhor não. Ele estava caminhando tranquilamente, lendo seu livro, sorrindo de
canto de boca, com uma expressão serena, e eu, curioso como sou, queria a todo
custo saber qual o título da obra, enquanto as pessoas caminhavam praguejando –
afinal, elas só contavam com um minuto, e alguém resolveu caminhar
tranquilamente na avenida principal, justamente naquela hora, atrapalhando a
corrida delas. Que má sorte, não?! Não sei nem se elas repararam no que o
senhor estava fazendo, além de andar devagar, desatento. Suspeito de que muita
gente o chamou de louco naquela hora.
Será que alguém reparou
na maneira como ele passava as páginas do livro? Na maneira como ele o segurava?
Será que perceberam como ele mudava a expressão do rosto a cada frase tocante
ou engraçada? Será que alguém reparou que mesmo de cabeça baixa ele soube
quando parar ou seguir na hora de atravessar a rua? Eu estou me perguntando até
agora se todas as pessoas conseguiram alcançar o portal e penetrar o mundo de
Nárnia também, sabia? Eu, se fosse um deles, me jogaria na toca de um coelho, mas
escolhi esperar mesmo.
Há muita coisa para
capturar e muita fotografia para ver ainda por aqui. Dia desses, recebi um e-mail
de uma pessoa elogiando o que faço. O e-mail dizia o seguinte: “Eu adorei seu trabalho. Suas fotografias
são tão cheias de luz, de amor. Eu amo fotografar, mas as minhas fotografias
nem se comparam às suas. Parabéns!”.
Quando terminei de ler
dei um sorriso feliz, os olhinhos piscando de satisfação. Afinal, quem não gosta
de um elogio, não é mesmo? Mas, sabe o que penso sobre isso? Vou contar para
você: o que eu penso é que as minhas fotografias não são melhores ou mais belas
que as de ninguém. Na verdade, a única diferença que há entre uma fotografia e
outra é simplesmente o olhar para onde a lente da câmera aponta. É a
sensibilidade que você tem na maneira de ver o mundo ao seu redor, que faz com
que uma simples gota caindo do céu se transforme na mais bela fotografia.
© Diego França 2016