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17 de setembro de 2018

'Graça e Fúria', de Tracy Banghart


Olá! ♥️
Representatividade importa sim! E muitos autores à sua maneira tem tentado inserir nas suas histórias personagens que representam a minoria. Embora nem sempre satisfatória, a representatividade surge como um grito que por muito tempo esteve abafado, mas que agora, espero, não vai mais se calar. Em "Graça e Fúria", de Tracy Banghart", temos o grito das mulheres na luta diária pela sobrevivência numa sociedade (não tão) fictícia, onde as mulheres não podem saber ler, não decidem, não escolhem e são criadas para serem graças e servir aos homens.


O livro é e sempre foi uma das armas mais significativas e fortes para vencer batalhas contra a ignorância. Nele recriamos espaços e universos, recontamos histórias e nos colocamos diante de acontecimentos que embora não represente completamente e fielmente a realidade, de alguma forma mostra um pedacinho dela, o suficiente para um primeiro despertar. E é a partir disso que o livro torna-se um "perigo". Assim pensam os homens de Virídia, cidade palco dos percalços pelos quais Serina e Nomi, personagens principais do livro, passarão.

Serina Tessaro sempre foi criada para ser uma graça. Bons modos, delicadeza, ser boa dançarina e se curvar diante do governante foram coisas que aprendeu durante todos os anos sendo preparada para a grande seleção. Em contrapartida, Nomi Tessaro acha tudo isso um absurdo, afinal uma mulher não deve ser escolhida, ela deveria ter o direito de escolher. Mas não é assim que acontece em Verídia. Enquanto sua irmã se prepara para ser uma graça, Nomi ocupa o papel de aia mesmo contra sua vontade. Ela acredita que não deve seguir regras e que pode fazer o que bem entende, inclusive até aprendeu a ler (algo proibido para as mulheres). Seu amor pela leitura é tão grande, que Nomi acaba cometendo um erro que vai colocar em risco a vida de sua irmã que agora está separada dela por ter levado a culpa. A partir de então, toda a narrativa é envolvida pela tensão e batalha de Serina e Nomi para sobreviver às prisões que as cercam e à lutas que colocam mulheres contra mulheres.
"A lei proibia que as mulheres lessem. Na verdade, a lei proibia que fizessem praticamente qualquer coisa além de parir, trabalhar em fábricas e limpar a casa de homens ricos." [pág.: 20]
Graça e fúria com certeza bebe da fonte de algumas distopias que já conhecemos e a relevância de sua temática torna a história mais impactante. É possível encontrar lembranças de "A Seleção", de Kiera Cass, na seleção para escolher a nova graça, bem como reconhecer desfechos de "A Rainha vermelha", de Victoria Aveyard na narrativa. No entanto, sem desmerecer as demais histórias, o livro de Tracy nos apresenta imagens sofridas de mulheres prisioneiras, reféns de seus próprios medos e do patriarcado, o que já é um motivo para darmos maior atenção já que a ficção segue os passos da realidade e nesse momento de desconstrução e luta pelos direitos da mulher se faz uma leitura necessária.

Ainda que não seja uma história memorável quando se fala em feminismo, Graça e Fúria se revela uma narrativa cheia de reviravoltas e diálogos inteligentes que faz um convite à reflexão a cada discursos de empoderamento e até mesmo de submissão presentes na narrativa. O tema abordado não se desenvolve de maneira simplória e traz questões bem reais que estão presentes nas sociedades há milhões de anos. Posso falar das humilhações pelas quais as mulheres passam, da violência com que são tratadas, da prisão a que são submetidas, entre outras coisas.

Serina e Nomi tem personalidades diferentes. Enquanto uma nega as imposições, a outra, para se manter segura, cede a elas. Mas agora, Nomi, que sempre quis escolher seu próprio destino, está presa em um palácio sem saber em quem confiar. Ela está de mãos atadas com medo de prejudicar e perder a irmã de uma vez, mas tentada a arriscar tudo para salvá-la. Enquanto isso, Serina, que foi criada para ser a garota perfeita, precisa ir contra tudo o que aprendeu para escapar da prisão. É nesse momento que a garota despertará e compreenderá o que a irmã costumava dizer. E vai descobrir que é mais forte do que imaginava.


Embora nem sempre Serina concorde com Nome e esta, por sua vez, também discorde de Serina, intriga alguma é capaz de fazê-las se odiar. Isso, além de amor de irmã é um ato de união. E num dado momento, em meio ao inferno que se revela para Serina, o leitor vai estar diante de uma grande luta pela sobrevivência. Essa luta é provocada pela vaidade dos homens que se sentem mais seguros quando as vêem brigando. Neste momento você perceberá a importância da união das mulheres e um superpoder chamado sororidade que se inicia na história e provavelmente estará mais evidente no segundo livro da duologia.
"O coração de Serina despencou. Mulehres não brigavam. Nunca. Nem com homens, nem com as outras. Violência era sempre punida da forma mais severa. Ela já tinha ouvido histórias de mulheres que haviam tentado lutar - uma prima distante que tinha se defendido do marido abusivo, uma mulher na fábrica de tecidos que havia estapeado um homem quando ele tentara beijá-la. Todas tinham sido severamente punidas. Açoitadas, presas. (...) Como aquilo era permitido no lugar cujo propósito era conter tal comportamento?" [Pág.: 74-75]
Como uma escrita leve e uma narrativa que empolga e toma a atenção do leitor, Tracy Banghart nos conta uma história que representa muito bem o sofrimento da mulher para se manter numa sociedade machista e nos apresenta uma possibilidade plausível para que esses homens as queiram diminui-las. A autora também traz o contraponto entre a mulher rebelde e a submissa e nos surpreende em dado momento quando insere uma retomada de consciência de uma das personagens, embora deixe a desejar, nesse primeiro livro, com a personalidade de Nomi, ainda que haja uma justificativa plausível para isso o leitor sempre vai esperar mais de suas ações.

Em suma, Graça e Fúria é uma distopia que merece ser lida com entusiasmo, merece ser dada de presente à sobrinha, à neta, à filha. E mais importante ainda, aos filhos, e primos, e netos. É uma história válida para quem está começando a ler e se interessa pelo tema da narrativa. É uma história que, além de reafirmar a força e a luta constante da mulher, que ela deve ser ouvida, nos mostra o quanto a leitura pode fazer de nós pessoas poderosas. 

Bjão!
Com carinho ♥️

2 de abril de 2018

Coragem: um manifesto, de Rose McGowan




Olá,
Nada melhor que começar a semana com o manifesto, não é mesmo? E é assim que defino inicialmente o livro CORAGEM, escrito por Rose McGowan, que por muito tempo viveu sob os holofotes em Hollywood e por isso conhece muito bem as facetas e infortúnios pelas quais as atrizes passam quando as câmeras estão desligadas.

Rose McGowan cresceu numa seita como ela mesma define nas primeiras páginas do livro. A primeira delas aconteceu quando era muito nova e foi obrigada a orar e crer num Deus cruel que ela se recusava acreditar. Foi  obrigada a conviver com as instabilidades emocionais do pai, e quando finalmente conseguiu se livrar entrou de cabeça em outro pesadelo: um relacionamento abusivo. E você concorda que é mais triste quando você sai de um lugar perturbador, crente que encontrou o paraíso, e mais tarde esse lugar confortável se mostra mais uma espécie de pesadelo? Foi assim que aconteceu. Então McGowan decidiu fugir, passou perrengue nas ruas, foi vítima de abuso até ser descoberta por Hollywood. E ela não sabia, mas esse seria outra seita da qual, mais tarde, ela tentaria - e não seria fácil - se livrar. Então, esse período, enquanto gravava filmes de sucesso, dava entrevistas e mais entrevistas, Rose também era humilhada, foi abusada outra vez - fisicamente e mentalmente - e se afastou de quem realmente era com todo o ideal de beleza para atrair o público não por seus trabalhos, mas pelo seu corpo e sensualidade. O machismo é latente. Tudo isso bagunçou a mente de uma atriz dedicada, que mais tarde teve problemas de depressão. Mesmo assim ela não desistiu e o resultado disso está nesse texto dramático e cheio de fúria contido na sua autobiografia, intitulada CORAGEM.
"Me diziam que eu precisava ter cabelo comprido, caso contrário, os homens que contratavam em Hollywood não iam querer me comer, e se eles não quisessem me comer, não me contratariam. Ouvi isso da minha agente, uma mulher, o que é trágico em muitos níveis. Tão, tão, tão cruel e tão triste."[Pág.: 12]
Comecei a ler esse livro com um certo preconceito, não nego. Não costumo ler autobiografias porque não gosto, então estava relutante quando recebi esse livro. No entanto, como conheço a atriz desde 1996, através do primeiro filme da franquia PÂNICO, e por se tratar de um manifesto - posso bem dizer assim -, uma voz a falar sobre abuso, sobre "escravidão", sobre machismo, eu decidi me dar a chance de ler. E posso dizer que definitivamente não me arrependi. Rose McGowan teve um passado difícil e muito triste. Perdeu a infância, mas viveu com garra suas dificuldades. Foi abusada várias vezes, sofreu violência no lar, fora deles e atrás das câmeras na poderosa - e cruel! - Hollywood. Seu texto não é somente uma denúncia, mas também uma alerta; uma maneira de "falar" para você, que você não está sozinha (o) e que é mais forte do que imagina.


Fazer a leitura desse livro pode fazer com que você, que já passou por isso, não se sinta só e entenda a importância de não se calar ou de pedir ajuda. Não é uma caminhada fácil, podemos imaginar, mas é uma luta diária que precisa ser comentada e exposta. Os relatos de McGowan são intensos, por vezes apelativos e cheios de fúria. É um diálogo direto que ela faz com o leitor, como se estivéssemos numa roda entre amigos revelando nossos segredos e insatisfações. Alguns relatos são tão chocantes, que parecem irreais.

Com um discurso empoderado e firme, além de muito corajoso, Rose revisita seu passado e traz à tona momentos difíceis de serem lembrados. Ela divide com o leitor suas experiências mais traumáticas e denuncia o abuso sexual numa indústria extremamente machista, que dita o jeito certo de se vestir, e a mulher/ a pessoa que você deve ser. Mas não é só isso, não é somente dividir e contar seus dramas. O texto funciona como motivação, a autora está conversando com você, dizendo para você. Como ela mesma diz numa passagem do texto, "ser corajosa não quer dizer não ter medo, só significa fazer as coisas que dão medo mesmo assim."

E para além da denúncia, podemos facilmente perceber o resultado dos maus tratos na vida de uma pessoa que passa por tanto abuso de todos o lados. Portanto, esse é um livro para todos. Não importa o que você tenha passado, se já passou por algo parecido ou não, você sempre pode ajudar o outro. Você sempre pode entender o outro. Uma mulher não sobre abuso ou apanha por que quer; ela é pega primeiro pelo psicológico. E você consegue imaginar a bagunça que isso gera na mente de uma pessoa?
"A verdade é que eu não deveria ter me envergonhado, e, no caso de todas as vítimas em situações parecidas , elas não devem se envergonhar. Quem deveria se envergonhar é o doente que nos tocou de modo inadequado." [Pág.: 89]
Algumas pessoas provavelmente dirão que é mais um livro feminista, de uma mulher mal amada ou coisa parecida. Mas não é! O assunto é sério e precisa ser discutido mesmo e comentado sempre e em qualquer lugar. A gente não pode nunca se calar, estamos vivendo um momento de desconstruções daquilo que nos foi dado desde o início de nossas vidas. Tenha CORAGEM. 
"Minha vida, como você vai ler, me levou de um culto ao outro, o maior culto de todos; Hollywood. CORAGEM é a história de como lutei para sair desses cultos e retomei as rédeas da minha vida. Eu quero ajudar você a fazer o mesmo. "
-- Rose McGowan

28 de setembro de 2017

Chimamanda Ngozi Adiche: 'Sejamos Todos Feministas' e 'Para Educar Crianças Feministas - Um Manifesto'






Você já leu Chimamanda? 

Se ainda não leu começo o post de hoje dando duas dicas de leitura para que você possa dar um pouco mais de atenção aos discursos dessa "feminista feliz e africana".  E em seguida direi as razões pelas quais vocês deveriam ler "Sejamos Todos Feministas" e "Para Educar Crianças Feministas - Um Manifesto". 

Estamos mais do nunca acordando para os problemas sociais que nos afetam desde quando o mundo passou a ser mundo e a cultura passou a se desenvolver: gays lutam  pela aceitação e espaço; negros lutam contra o racismo, mulheres lutam contra o machismo. Deixamos de lado nessa postagem a discussão sobre sexualidade e raça, para focar no discurso de Chimamanda (que de alguma forma acaba tendo uma ligação uns com os outros) sobre feminismo, a luta diária pela igualdade de gênero. 

Primeiramente gostaria de pedir desculpas a todas as mulheres que porventura virão a ler essa publicação. Perdoem-me caso eu use algum termo de maneira equivocada e que cause algum incomodo. Nasci numa sociedade machista e luto todos os dias conta as atitudes e pensamentos machistas que muitas vezes tenho sem nem perceber. Portanto, estou aberto às discussões, opiniões e ensinamentos.

Hoje quando desci do ônibus para ir ao trabalho decidi seguir caminho lendo "Sejamos Todos Feministas" e fiquei impressionado com o que li. Tão impressionado que li andando. E à medida em que lia e me atentava ao que estava ao meu redor também, pensava em tudo o que estava escrito e nas crianças e seus pais que passavam por mim. Como seria o pensamento deles? Como esses homens eram com suas esposas e como elas eram para eles. O que essa criança escuta em casa? Esse foi o primeiro passo para que eu pudesse dar ainda mais atenção ao que estava lendo e continuar a leitura. Já nas primeiras páginas as palavras de Chimamanda me fizeram olhar para o que estava ao meu redor e refletir. 

Em Sejamos todos Feministas nos é apresentada uma versão modificada de uma palestra que Chimamanda deu em 2012, numa conferência anual focada na África. A nigeriana nos leva a uma reflexão acerca do que é feminismo, apontando que a palavra feminista e a própria ideia de feminismo é limitada por estereótipos. No discurso inteligente e cheio de exemplos, a autora contextualiza o feminismo nas diversas situações reais e nos leva refletir sobre "O que é ser feminista no século XXI?".Nesse ensaio Chimamanda parte de suas experiências pessoais para se fazer entender e despertar nos ouvintes/leitores uma reflexão sobre como se comportam perante a sociedade machista, onde a mulher está sempre à sombra do homem. 
"Hoje vivemos num mundo completamente diferente. A pessoa mais qualificada para liderar não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. E não existem hormônios para esses atributos. Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar." (Pág.: 21)
O discurso é elegante, direto e coerente. Chimamanda desconstrói o ideal de mulher criado pelas sociedades, aponta para as exigências sociais em relação a quem e o que a mulher deve ser e ao mesmo tempo provoca o leitor sobre o por quê de não cobrar ao homem também. E ela faz isso não de maneira aleatória. Ela apresenta fatos e argumentos muito bem desenvolvidos para justificar seus questionamentos. 

Uma situação na sala de aula, uma situação durante o passeio com um amigo, uma conversa com uma amiga ou um crítico. Todas essas situações nos são apresentadas e em todas elas são perceptíveis e preocupantes o machismo latente e a subordinação da mulher. É preciso dar atenção às palavras e compreender o significado de feminismo para lutar contra o que oprime as mulheres nessas culturas machistas. 
A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura." (Pág,: 48)
E temos que mudar nossa cultura partindo também da educação que damos às nossas crianças, o exemplo que damos a elas dentro de casa. É preciso falar com elas sobre feminismo. 


Em Para Educar Crianças Feministas Chimamanda responde a carta de uma amiga que a escreveu pedindo orientação sobre como educar sua filha como feminista. Nesse livro ela retoma a discussão sobre igualdade de gênero e dá quinze sugestões para criar uma criança dentro de uma perspectiva feminista. 

Uma das sugestões é que a mulher não se deixe ser definida pela maternidade. Há espaço para ser mãe e ser uma profissional. Ela também provoca o leitor para a importância da leitura, a importância de ler para e com as crianças. Ser bem resolvida com o emprego, ser "completa" e ter a humildade de pedir ajuda também são fatores importantes a serem levados em conta.

Outra sugestão de Chimamanda é a de fazer junto. O casal deve trabalhar juntos e cuidar dos filhos de igual para igual. E uma ideia interessante a ser frisada está na passagem em que ela diz que não se deve aplaudir o marido ou parabenizá-lo quando ele troca a fralda de uma criança ou ajuda a cuidar dela num dia qualquer. Ele está apenas fazendo o papel de pai, um dever que também é dele. 
E por favor abandone a linguagem da "ajuda". Chudi não está "ajudando" você ao cuidar da filha dele. Está fazendo o que deveria fazer.  Ao dizermos que os pais estão "ajudando", o que sugerimos é que cuidar dos filhos é território materno, onde os pais se aventuram corajosamente a entrar." (Pág.: 19, 20)
Um ponto muito, mas muito importante mesmo, está para o papel de gênero. Chimamanda sugere que não se deve nunca deixar de fazer ou simplesmente se sentir obrigada a fazer algo "porque você é menina". 'Porque você é menina nunca é razão para nada.' E aqui ela discursa sobre os brinquedos que são produzidos para meninos e os que são produzidos para meninas; questiona o olhar preconceituoso que se tem para uma garota que decide brincar com um avião, ao invés de uma boneca, entre outras situações.

O comportamento exigido pelas sociedades e as culturas que moldam as atitudes e formas de vestir de uma mulher também é questionado e criticado. Quando você dita o que uma pessoa deve ser, você está impedido que ela seja o que realmente ela é. E Chimamada só afirma isso com o exemplo que dá, de uma situação presenciada por ela.
"Uma jovem nigeriana uma vez me contou que passou muito anos se comportando "como menino" - gostava de futebol e não achava graça em vestidos -, até que a mãe a obrigou a abandonar seus interesses "de menino" e agora ela agradece à mãe por ajudá-la a começar a se comportar como menina. A história me deixou triste. Fiquei imaginando o que ela teve de abafar e silenciar dentro de si, o que sua personalidade perdeu, pois aquilo que a moça chamava de "se comportar como menino" era, na verdade, se comportar como ela mesma. (Pág.:26, 27)
As dica não acabam por aí, mas é muito importante que você entenda a importância de ler textos sobre feminismo, de buscar, de pesquisar e fugir do estereótipo de que a mulher feminista queima sutiã, odeia os homens, entre outros absurdos que ainda hoje é possível perceber no discurso de muitos. Compreender isso é o primeiro passo para sair desse lugar comum onde a mulher é colocada. 

Ler Chimamanda é inspirador. E libertador também.

Busque, entenda, falem, converse sobre feminismo. Reflita sobre o lugar que você ocupa, se é merecido. Onde você gostaria de estar? Onde você deveria estar. Atenha-se aos detalhes, porque por menores que sejam, eles podem sim fazer a diferença.

Bjão,


8 de dezembro de 2016

'Bridget Jones - No Limite da Razão', da autora Helen Fielding


 
Olá! ♡

Tudo bem com você? Por aqui está tudo ótimo. Principalmente porque hoje, enfim, poderei contar para o que achei do segundo volume da série de livros que nos mostra o diário da tão querida Bridget Jones. Lembro que contei a vocês que no primeiro liro ela me irritou um pouco, mas aos poucos fui entendendo melhor quem ela é, o universo ao redor seu redor, sua família e tudo mais, e tenho que dizer: em "No limite da razão" Bridget me conquistou por completo. O livro está mais engraçado e a personagem ainda mais cativante. Também vou contar um pouco sobre o que achei do filme - sim, eu assisti logo depois de ler o livro. 


Em O Diário de Bridget Jones, o primeiro livro sobre essa personagem tão icônica e querida, desde 1996, podemos conhecer a família da personagem, seus problemas em casa, com seu corpo e sua baixa auto-estima, de alguma forma alimentada pelas grandes e absurdas exigências sociais. Também podemos conhecer mais do romantismo da personagem com seu par.

|Atenção! Por ser um livro continuação de uma história, a resenha será escrita de maneira mais crítica e abordando os pontos problemáticos do enredo. Os comentários acerca dos personagens serão leves, seus respectivos pares e com quem eles terminam - ou não - serão informações evitados - tentei deixar isso bem implícito, para que não aja nenhum tipo de spoiler. Sei que muita gente já leu ou viu o filme, mas tenho certeza que algumas pessoas ainda não leram, por isso não gostaria de estragar os grandes pontos da história.| 

Em "Bridget Jones - No limites da razão" continuamos acompanhando o diário da trintona mais carismática e atrapalhada que você respeita. Ela ainda continua a escrever no seu diário e de maneira só um pouquinho mais leve ainda nos mostra o quanto se preocupa em manter o peso ideal, para caber na roupa ideal e em ser bem vista pelo seu "rapaz ideal" (?), cujo personagem é uma grande referência a uma história clássica. Nesse segundo livro Bridget está ainda mais cativante e carismática, vivendo situações mais engraçadas e nos levando a observar a problemática sobre como a mulher é vista pela sociedade e os rótulos que elas têm através de situações engraçadas, narradas por ela mesma, mas sempre mantendo a ideia de que "a mulher pode ser independente sim" - livre dos rótulos, do modelo que lhe impuseram desde o início da sociedade, que lhe diz que ela precisa necessariamente casar. Talvez casar seja uma escolha, não por ser dependente, mas porque se apaixonou por uma pessoa digna, que lhe dá toda a liberdade de ser quem é. 

No Limite da Razão trará aqueles personagens irritantes, mas que não ousaria chamar de vilão. Sabe aquela pessoa que chega para atrapalhar a vida do casal apaixonado? É exatamente ela que que vai aparecer no livro e no filme, que aborda também a questão da sexualidade (haverá algumas diferenças gritantes em relação ao livro). Os amigos da personagem principal também aparecem aqui com suas características e personalidades fiéis ao primeiro livro: o amigo gay, a amiga extremamente romântica e submissa, e aquela feminista, emancipada, mas que também sente a necessidade de encontrar alguém com quem possa ter uma relação (o foco nos amigos é menor no filme). Daniel, a ex-paixão e ex-chefe de Bridget volta para mais uma tentativa de conquistar a mulher e levá-la para a cama, porém é aqui que a gente percebe um sutil amadurecimento da Bridget (no filme esse amadurecimento não acontece no momento em que Daniel aparece). 

Quem também não poderia deixar de marcar presença é Marc Darcy, um advogado extremamente tímido e rígido, com quem Bridget terá seus encontros e desencontros e que reforça a grande referência da história com o Mr Darcy, de Orgulho e preconceito. Um dos pontos mais engraçados da história inclusive, é quando Bridget é escalada para entrevistar o ator que interpretou o personagem da adaptação cinematográfica do clássico de Jane Austen.

Um dos maiores focos do livro está na questão dos relacionamentos modernos, e apesar de o livro ter sido lançado no ano de 1999 ainda continuamos a ler e vivenciar essas problemáticas dos relacionamentos. O que sobra e o que falta nas relações entre as pessoas? Ligo para ele ou para ela e tento uma conversa ou deixo de ligar e espero o retorno?

Talvez eu só tenha imaginado que ele estava terminando comigo e não fosse essa a intenção dele. Talvez no carro ele só estivesse transtornado por toda a história da agarração e esperasse que eu dissesse alguma coisa , mas agora acha que estou fugindo! Vou ligar. Esse é o problema dos relacionamentos (ou ex relacionamentos ) modernos, simplesmente não há comunicação. (Pág.: 111)

A narrativa continua excelente, a tradução da Editora Paralela também é impecável e não tira da gente a graça e as piadas do livro que funcionam muito bem. Quanto à construção da narrativa, Fielding nos envolve nas situações e junto aos personagens, principalmente a Bridget, nos conduz a refletir sobre acontecimentos, ações e atitudes, ofertando ao leitor uma tomada de consciência para um olhar mais crítico sobre a vida real da mulher na sociedade e dos relacionamentos que podem ser curéis, algo que também acontece no primeiro livro e que continua firme aqui. Com um bom humor, as situações são como uma grande ironia para o leitor que traz à realidade suas experiências e as compara com o universo de Bridget, que é um pouco de cada um de nós: um poço de insegurança, de drama, de melancolia, de atitudes erradas, etc. Não que os demais personagens também não representem ninguém, no entanto existe uma tensão maior sobre a protagonista.

"Estou muito melhor agora. Compreendi que a resposta não é ficar obcecado por nossos próprios problemas, mas ajudar os outros. Passei uma hora e quinze minutos ao telefone animando Simon, que, claro, não estava na cama com Sharon. Acabei sabendo que ele ia se encontrar à noite com uma garota chada Georgia, com quem estava transando nas noites de sábado , mas agora Georgia tinha lhe dito que não achava que a noite de sábado era uma boa ideia, porque fazia parecer que eles eram um casal." (Pág.177) 

E não posso deixar de citar também uma problemática muito importante e que é atrelada à questão feminista que envolve o enredo do livro. o machismo. Que existe desde que a sociedade passou a existir, certo que antigamente mais explicita, porém atualmente disfarçada, mas firme e forte em sua existência. Isso está no pensamento de pessoas mais velhas de algumas mulheres, mas ainda e principalmente no discurso e na fala dos homens aqui representado por Daniel. O leitor irá notar isso facilmente, mas num dado momento do pensamento da própria Bridget Jones: 
"Daniel é o arquétipo absoluto do homem de fim de milênio. Está ficando claro para que as mulheres são a classe superior . E ele está compreendendo que não tem mais papel nem função alguma, portanto, o que é que faz? Parte para a violência." (Pág.: 262) 

 Ainda atual e refletindo a mulher e o que ela sofre com as imposições da sociedade carregada de machismo, Bridget Jones continua sendo um retrato das consequências de ser "escrava" das imposições sociais e dos tipos de relacionamentos impostos pela sociedade. Com um humor natural - embora alguns momentos desenhando uma mulher exageradamente ingênua - e linguagem nada rebuscada, No Limite da Razão é um livro ideal para rir e para ser problematizado na roda de amigos e até mesmo na família. 

♡ XOXO,
Diih.
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