Olá! ♡

Você já teve um amigo imaginário? Eu já tive vários. E com certeza todos eles estão vivos na minha memória, alguns mais do que outros, mas todos aparecem nitidamente quando fecho os olhos e relembro minha infância. Nos meus momentos de infortúnio, na falta de pode, visitar meu mundo paralelo sempre ajudou, era um lugar lindo, e todos os meus amigos preenchiam uma parte do que eu gostaria de ter ou gostaria de ser. E esse é o grande barato de alimentar o imaginário. E é sobre a beleza chamada imaginação, que Michelle Cuevas escreveu. 

Uma autobiografia por Jacques Papier.

Confissões de um amigo imaginário é um livro infanto-juvenil, publicado pela Galera Junior (selo do Grupo Editorial Record), e conta a história de Jacques, um garoto que desconfia fortemente que ninguém gosta dele, nem mesmo o cachorro da casa onde mora com sua irmã e seus pais. Ninguém nota sua presença, todos sempre precisam lembrar que ele também está ali, nem mesmo a professora dá importância quando Jacques suspende a mão para responder a alguma pergunta que ela faça. Fleur é sua irmã e companheira, a conhecedora dos seus segredos e pensamentos. Mas para surpresa de Jacques, um dia ele descobre que ela não é sua irmã de verdade e que é apenas um ser imaginário, obra da imaginação dessa garotinha doce e tão carinhosa. Neste momento, apesar de amar aquela menina que tanto lhe deu atenção, Jacques decide que quer a liberdade para ser o que ele quiser e para buscar o seu verdadeiro eu. É possível ser real quando você não existe fisicamente? Juntos, você leitor e Jacques, vão fazer uma divertida caminhada em busca do significado da vida, irá conhecer várias crianças, cada uma com sua personalidade e peculiaridade, e vai descobrir a grande maravilha, o presente especial que é a invisível maravilha de ser quem se é.

- Eu acho que o problema é - continuei - que eu tenho me perguntado qual o sentido de eu existir, se é que existe algum. Quero dizer, eu vivi oito anos de vida inteiro pensando que era uma pessoa de verdade . E depois eu soube a verdade. E agora, quando penso nisso, percebo que não quero ser o irmão imaginário de alguém. Eu acho que quero ser real." (A luz do Luar - Pág.: 65)

Uma das coisas mais bonitas que temos na vida é a capacidade de imaginar, de muitas vezes sermos criativos e colocar para fora aquilo que foi criado por alguma razão, um dos grandes exemplos disso está em "As Aventuras de Alice no país das Maravilhas", de Lewis Carroll, em que Alice vive seu sonho e aprende muito de si mesma.  Você já se perguntou por que uma criança tem um amigo imaginário? Melhor, não vou restringir isso aos pequenos, mas às pessoas no geral. Quantas vezes falamos, esbravejamos, suspiramos sozinhos ou dizemos em voz alta "eu gostaria de ser assim, de ter coragem de ir lá e fazer, de ser mais ousado..."? Você já parou para pensar que talvez nossa imaginação esteja aqui para nos lembrar de colocar para fora aquilo que somos, mas por alguma razão não temos coragem de deixar em evidência? Precisamos simplesmente SER. É isso! E talvez nossa imaginação e nossos amigos imaginários existam simplesmente para preencher uma lacuna que por algum motivo permitimos ter nas nossas vidas. 

Era uma vez um garoto que não existia de verdade. Ele vivia em uma casa em que tudo era possível , e cada canto era uma descoberta. Uma cerca viva era uma castelo. Um graveto era uma espada. Sementes de dente-de-leão eram a poeira necessária para fazer mágica. (Navegando para longe - Pág.: 81)

Em Confissões de um amigo imaginário conhecemos algumas crianças, cada uma com suas características que fazem delas especiais. Conhecemos o suficiente de suas famílias e entendemos perfeitamente as atitudes de cada personagem, através dos diálogos e discursos, que tem como ponte Jacques Papier. Com capítulos curtos, títulos intrigantes e ilustrações divertidas, a autora presenteia o leitor com uma bela e poética história sobre a importância de ser quem você é, mesmo quando ninguém está reparando em você. Ela deu vida a personagens tão ricos e carismáticos, que vale a pena destacar pelo menos um, e eu escolhi esse personagem porque ele representa a realidade de muitas crianças nesse mundo de acontecimentos instantâneos, discriminação, exclusão e bullying. 

O personagem se chama Bernard e ele é um garoto que vive se escondendo, se excluindo, tentando passar despercebido pelas pessoas e adquirindo mérito nisso. O garoto é o típico estranho da turma, criticado pelo cabelo e pelos óculos. Nunca é escolhido pela turma do futebol e é apaixonadinho por uma garota, a qual observa de longe. Quando Jacques Papier, em uma de suas missões, aparece na vida de Bernard o garoto começa a despertar, aos poucos vai aprendendo a caminhar sozinho e se torna um menino mais confiante.

Cuevas nos envolve numa história tão carismática e sensível, capaz de fazer nos sorrir em silêncio e mergulhar de cabeça na história a ponto de ler o livro em apenas um dia. E verdade seja dita, para as crianças esse livro pode funcionar perfeitamente como incentivo ao imaginário, à ideia de deixar a imaginação falar mais alto, bem como alimentar seu processo criativo. No adulto, a válvula de escape é a expressão que mais se aproxima da ideia de se desligar um pouco do mundo real e buscar energia nas possibilidades mil que nos são dadas também pela imaginação e criatividade. E dito isto, fica claro que essa é uma história para a família: as crianças podem ler, o pai a mãe, a tia, o avô também. 

Para ser honesto, eu começava a char que você ficaria boquiaberto com qualquer pessoa se você pudesse ver as partes dela que ninguém mais vê. Se você pudesse ver essas pessoas inventando musiquinhas ou fazendo caretas no espelho; se você as visse dormindo abraçadas com seus cachorros, ou parando para olhar um insetinho caminhar por um galho, ou simplesmente sendo muito diferentes e solitárias e chorando em algumas noites. Ao ver essas pessoas, vê-las realmente, você não conseguiria evitar achar que qualquer pessoa e todas as pessoas são incríveis. (As Partes Ocultas - Pág.: 146-147)

Confissões de um amigo imaginário é aquele tipo de livro que leva para a vida e faz dele seu amigo mais íntimo. Michelle Cuevas nos presenteia com uma história poética e cheia de delicadeza, que nos mostra o quanto nossas criações e a nossa imaginação revelam um pouco mais de quem somos e do que somos capaz de fazer. O livro é TOP 10 de livro infantil, do ano de 2015, da Time Magazine. 

Michele Cuevas se formou no Williams College e tem mestrado em belas artes e escrita criativa pela Universidade da Virginia, onde recebeu o Henry Hoyns Fellowship. Atualmente, se decida completamente à literatura e vive em Berkshire Country, Massachusetts. 

XOXO,
Diih ♡


Olá, pípol!

Feliz segunda para você que não vai fazer nada hoje e para você também que vai trabalhar ou assim como eu passar um dia inteirinho na faculdade. Porque a folga de vinte dias acabou, acho que já contei a vocês. Mas voltando ao que realmente interessa, hoje vou "falar" de  Magônia, primeiro livro de uma trilogia da autora Maria Dahvana Headley, lançado esse ano pela Galera Record.

A vida de Aza Ray está limitada por prazos que ela luta para ultrapassar. Sofrendo de uma doença rara que leva o seu nome, a garota cuja história feita de hospitais está há poucos dias de completar dezesseis anos, o que seria comum se não fosse esse o prazo que os médicos haviam lhe dado. Como se já não bastasse o medicamento que ela toma provavelmente está lhe causando efeitos colaterais, como alucinações. Vendo navios no céu e pássaros agindo estranhamente, Aza tenta levar isso para o lado racional e manter sob controle, é assim que ela é. Seu melhor amigo Jason, por quem ela começa a ter um sentimento mais profundo, tenta ajudá-la com suas dúvidas, pois ambos são estranhamente parecidos. Mas a vida que Aza costuma levar é interrompida bruscamente cinco dias antes do seu aniversário e ela é levada para Magônia, o mundo que existe acima das nuvens, de navios flutuantes e baleias-tempestade. A garota não consegue se desligar do que deixou na terra e não quer aceitar a missão para qual fora destinada, enquanto Jason não consegue acreditar que sua amiga se foi. E ele tem razões para isso. 

O livro começa nos apresentando Aza Ray Boyle, seu ponto de vista e principalmente a forma como ela convive com sua saúde frágil. Aza sofre de um mal tão raro, que este foi batizado com seu próprio nome, a "Síndrome de Azaray", já que nenhum médico conseguiu descobrir do que se tratava. E esse não é mais um "A Culpa é das estrelas". A narrativa é uma aventura dentro de uma mitologia interessante e curiosa e a doença de Aza é apenas um dos assuntos dos quais o livro trata. E falando em ACEDE, devoo dizer que além da família que a apoia, Aza conta com um amigo (seu melhor e único amigo) Jason, que, de acordo com seus relatos, é o único que não a trata como se ela tivesse uma sentença de morte sobre si (ainda que ela realmente tenha). Jason também tem seu ponto de vista no livro, é inteligente, promissor, tem manias estranhas e é criado por duas mães. A forma natural e bem balanceada que a autora aborda isso me cativou. Apesar do livro ser focado no assunto principal (a condição de vida de Aza) em certos momentos você entende como a história da família de Jason foi bem construída.



Cinco dias antes de completar 16 anos e vencer mais uma estimativa médica, Aza Ray passa por uma confusa situação (muito bem escrita, na minha opinião. Um dos momentos onde a autora conseguiu passar com excelência um ponto de emoção do livro), onde se vê separada de todos os que ama e do mundo que conhece. E é aí que conhecemos a verdadeira Magônia.

Acima das nuvens existe uma terra mágica de navios voadores, onde Aza não é mais a frágil garota enferma. Em Magônia, ela não só pode respirar como cantar. Suas canções têm poderes transformadores e, por intermédio delas, Aza pode mudar o mundo abaixo das nuvens.

Preciso dizer que a transição entre os dois momentos-chave do livro é feita de forma bem leve, em alguns momentos, ao contrário da introdução, que é um tanto maçante. Inicialmente a história com todos os seus detalhes é um tanto difícil de aturar. Mas é possível abstrair isso já que esse é um fato recorrente quando falamos do primeiro livro de uma trilogia, salvo raríssimas exceções. É bom falar também sobre a vida de Aza após essa transformação, pois ela está destinada a fazer algo grandioso (clichê?). A grande questão é que ela não se sente parte disso e não sabe se quer participar da missão a qual foi destinada nem se pode confiar em todos ao seu redor. Ao mesmo tempo ela precisa aprender a conviver com Dai, que foi incumbido de lhe treinar, mas ambos não conseguem se entender. Aza não consegue esquecer da sua família e de Jason (como esquecer de Jason, não é?). Aliás, ele também não esqueceu dela, e enquanto ela está com seus dilemas aéreos ele está utilizando todos os seus contatos e meios (lícitos ou não) para encontrá-la.

Após a leitura, a visão que tive desse livro é que falta algo. Falta algo nas explicações do mundo mágico, onde, às vezes, a informação só é jogada para nós e as coisas “acontecem porque simplesmente acontecem”. Falta algo na personalidade dos personagens também. As características mudam de forma não natural e quase podemos dividir essas personalidades em dois momentos que nada tem a ver com o fato da transformação de ambiente.


Magônia é um livro que começa devagar demais, torna-se interessante, como se tivesse um surto de adrenalina. Em seguida as coisas começam a acontecer muito rápido e então o livro vai esfriando demais no final. Não é um "grande acontecimento", não diria ser uma história marcante. Vamos aguardar a sequência, intitulada Aerie,  para ver se os personagens vão se desenvolver melhor nesta continuação e a história ganhe uma qualidade que faça dela marcante. 

XOXO,
Diih


Olá, ♡
para você fã de livro histórico e para você também que nunca leu ou nunca pensou ler, toda regra há uma exceção, e acredito que Belgravia é um forte candidato a ser essa exceção. O livro é do mesmo autor da série de sucesso Downton Abby, Julian Fellowes, e foi lançado numa edição caprichada pela Editora Intrínseca e anteriormente dividida em onze capítulos cedidos em formato de e-book. 

Belgravia retrata uma história de segredos e escândalo nas famílias Trenchard e Brockenhurst, em Londres. Estamos no ano de 1840, neste momento a classe industrial passa a conviver com a classe de alto nível social e a história se inicia antes da batalha de Waterloo, que aconteceu na Bélgica (quando Napoleão foi vencido pela Inglaterra e a Prúcia, encerrando assim seu império), em junho de 1815, no baile da Duquesa Richmond em homenagem ao duque de Wellington, em Bruxelas. Nesse baile, a menina Sophia, filha de Anne e James Trenchard, chama a atenção de Edmund Belassis, herdeiro de uma das famílias mais ricas da Bretanha. No entanto, nessa mesma noite, quando todos no baile são surpreendidos pela notícia de que Napoleão invadiu o país, um fatídico acontecimento irá separar a vida de Anne e Edmund. Mas os momentos em que os dois passaram juntos fora suficientes para que mesmo depois de 25 anos a história que tiveram ficasse marcada tanto na vida dos Brockenhurst quanto na Trenchard, ligando as duas famílias, gerando fofocas e intrigas na sociedade e nos casarões da Belgravia Square. 

Que grande segredo esconde a família Trenchard? De que acontecimento estamos falando? Qual terá sido o futuro do jovem casal? E o que aconteceu depois do acontecimento daquela noite em Bruxelas?




Como disse anteriormente, esse livro foi publicado em onze partes independentes, no formato de e-book, o que na verdade homenageou os grandes folhetins de antigamente. E por ser dividido em partes temos duas considerações: a) os capítulos dos livros são grandes; b) em cada capítulo um escândalo ou uma parte dos segredos revelados na trama. E eu poderia dizer o quanto capítulos grandes incomodam, se a história não fosse tão cativante e tão bem escrita ou se os capítulos não estivessem bem entrelaçados de forma a deixar a história cheia de pontas soltas. O que acontece é totalmente o contrário. O charme da narrativa e os acontecimentos escandalosos de cada parte da história convida naturalmente o leitor, que se envolve na trama e vive todas mazelas sociais da época junto aos personagens. 

Os capítulos são intitulados de acordo com o que será abordado em cada uma das partes, o que já é do nosso conhecimento em boa parte das divisões de capítulos dos livros que costumamos ler. O grande diferencial de Belgravia, de outros romances de época, está na história, na essência dos personagens e nas intrigas que nos revelam o quanto os grandes escândalos e confusões sociais, nesse caso das grandes elites, existem e são de alguma forma maquiados para exaltar a tranquilidade da alta sociedade. É um livro que pode muitas vezes confundir ficção com história - e isso se dá pelas referências históricas que ele traz no enredo -, consegue ser extremamente real e apesar da época mostrar o quanto é uma história atual também.

Será que a sociedade contemporânea é mesmo completamente diferente do que era antes? Talvez não. O que podemos perceber da trama de Fellows e que acredito ser uma grande sacada do autor para mostrar o reflexo da antiga sociedade na contemporaneidade, é que a inveja, a ganancia dos grandes senhores, as intrigas entre entre famílias e a relação de subordinação entre empregado e patrão continuam existindo e causando situações caóticas no nosso ambiente de trabalho e social, bem como na relação entre pessoas e nas traições que há nos casamentos de faixada. E não podemos esquecer do preconceito e diferença de classes: as dominadoras e as subordinadas. 

A ambição, a inveja, a raiva, a avareza, a bondade, o altruísmo e, sobretudo, o amor sempre foram e sempre serão poderosos a ponto de motivar nossas escolhas.

É perceptível o quanto temos uma trama rica em apontar características sociais gritantes. Mas não é somente isso. Os personagens de Fellowes são muito bem escritos, são pessoas fortes, com personalidades fortes e extremamente reais. Não existe o vilão e o bonzinho, todos têm as duas características, isso vai depender dos seus interesses e do estímulo que recebem com as ações que sofrem. Os homens são descritos uns com suas elegantes posturas, outros por sua inteligencia e poder de persuadir; as mulheres também possuem admirável elegância e fazem valer sua voz, não são simplesmente mocinhas, são mulheres fortes e decididas e que possuem papel importante na trama e que superam os preconceitos.

Belgravia é um livro excelente, cheio de ótimas referências históricas mas também intrigante e comovente. A narrativa conta com detalhes na medida certa, ambientação muito bem construída e diálogos pertinentes e muito inteligentes. Repleto de surpresas a cada capítulo, com certeza desperta no leitor não só prazer pela narrativa intrigante, mas também um olhar mais crítico sobre os problemas sociais que tivemos e que ainda temos. 

XOXO,
Diih.





Olá! 

APENAS UM GAROTO é o livro tema da resenha de hoje, que vem com um sabor de queria mais, poderia ser mais, mas não foi. Lançado pela Editora Arqueiro, o livro de Bill Konigsberg traz a história de um adolescente homossexual cansado de ser rotulado como 'gay', que deseja ser conhecido apenas por quem é, não por sua orientação sexual. Um ótimo assunto a ser abordado se a história fosse menos genérica e trouxesse um personagem menos preconceituoso e (ironicamente) taxativo demais, além de uma realidade de vida exageradamente perfeita.

Em Apenas Um garoto vamos conhecer Rafe, um adolescente de 13 anos de idade, que tem uma vida tranquila. Ele é gay, seus pais o aceitam desde o dia em que ele resolveu contar que estava apaixonado por um garoto, e o colégio onde estuda é livre dos atos 'violentos' do preconceito. Lá Rafe é muito bem aceito e respeitado por todo o colégio, inclusive. Mas isso para Rafe não basta. Mesmo com um pai e uma mãe tranquilos, nada preconceituosos, e uma amiga que também o ama, o garoto não quer viver num lugar onde todo mundo conhece ele como 'o gay' da escola, por isso decide se mudar para outro colégio, só para meninos, para começar uma nova vida e ser simplesmente Rafe. Lá ninguém saberá que ele é gay inicialmente porque ele esconderá isso de todos, pois deseja ser aceito no grupo esportivo. Ele esconde sua sexualidade até para o seu colega de quarto que também é gay. Até que previsivelmente Rafe se apaixona por um de seus novos "amigos" e todos os seus planos começam a dar errado. A partir daí Rafe começa a tomar um choque de consciência. 

Nos últimos anos grandes editoras vem abrindo as portas para o público LGBT e publicado cada vez mais livros com histórias que tratam de sexualidade e nos apresentam personagens vivendo seus momentos de "descoberta", de infortúnios na vida social, pela condição sexual que tem, o bullying que essa "minoria" sofre dentro e fora da escola, etc. Mas infelizmente nem todas essas histórias apresentam de maneira digna a vida de um homossexual, nem todas elas nos apresentam personagens dignos de admiração e de ser representante do público a que se refere. E apenas um garoto está na minha lista de não me representa

Em apenas um garoto temos um ótimo tema para tratar relacionado a homossexualidade. O autor apostou na ideia de que nós não precisamos ser taxados: antes de sermos rotulados como gays somos seres humanos iguais a qualquer outra pessoa. Até aqui tudo ótimo, ponto para a iniciativa. Mas o autor peca quando escreve uma história contra os rótulos e acaba rotulando ao mesmo tempo. É certo que Rafe, nosso personagem, representa um gay que comete um "erro", acaba se machucando e machucando as pessoas que gostam, e acaba ganhando com isso um choque de realidade no final de tudo. Mas ele é um personagem um tanto preconceituoso e digamos que se torna uma pessoa menos admirável que antes.

 Rafe é preconceituoso demais, taxativo demais, e o tempo inteira na história nega o que ele é simplesmente porque deseja ser aceito no time de futebol da escola onde estuda. Você realmente gostaria de ser aceito num grupo sendo aquilo que não é? Enquanto nós gays estamos o tempo inteiro lutando contra o preconceito e lutamos também por um espaço que seja nosso,  que nos dê a liberdade que é nossa por direito, me deparo com um personagem que tem uma vida toda estruturada, uma família que recebe ele do jeito que é, amigos que o respeitam profundamente, e mesmo assim ele tenta retroceder porque está sendo taxado por todos eles - diria ser isso um detalhe porque todos nós somos taxados por algo nessa vida seja você quem for ou o que for.

"Mas Dii, essa seria uma história sobre aprendizado? Porque todo mundo erra, talvez o Rafe tenha aprendido a lição depois". Ok! Se o Rafe assume quem é no final você só vai saber lendo, mas o garoto adquire uma personagem que não achei nem um pouco agradável antes, tão pouco depois. Rafa representa uma única parte dos homossexuais, aquele estereótipo de gay que não dá pinta, longe do meio, o famoso garoto discreto. É SOMENTE ESSA "CLASSE" QUE RAFE REPRESENTA. Todos os garotos que fazem parte da história também são altamente estereotipados e igualmente taxados. O que representa uma grande ironia porque volto a repetir: a história quer ser contra os rótulos, mas o autor pisou numa areia movediça que o fez escorregar feio e ser extremamente taxativo no seu texto.

Não vou deixar de dizer que o final do livro me surpreendeu, não serei injusto a ponto de dizer que vai ser de cara aquilo que você espera. Mas você saca o personagem que balançará a vida de Rafe facilmente: a personificação do clichê! O garoto grandão, bonitão, perfeito aos olhos de quem vê leva a melhor (detalhe ele é hétero curioso ou confuso), enquanto o amigo do personagem principal, um gay taxado como "estranho" é aquele do qual mal se fala e quando fala é apontando suas estranhezas. E falando dos discursos do texto, um dos poucos diálogos e passagens mais inteligentes e relevantes é quando Rafe discute na sala de aula, induzido pelo professor a diferença entre tolerância e aceitação. Inclusive, esse professor é um personagem nota 10, assim como os pais do protagonista.

Na verdade, tolerância e aceitação são duas coisas diferentes. Tolerar implica algo negativo a ser tolerado, não é? Mas e aceitação, o que é? (Pág.: 117)

E para terminar, um simples comentário sobre a construção da história: não é legal, é quase surreal. Talvez seja algo que nós gays desejamos muito, mas que não existe, que é um mundo calmo para nós, onde estaríamos livres dos dedos maldosos nos apontando, e criticando. Rafe vive nesse mundo. Ninguém faz nada contra ele, ele não é excluído, ele não sofre com o preconceito. Por favor, é importante que isso seja mostrado de maneira explícita e não genérica como está nesse livro. 

Infelizmente Apenas um garoto é um livro o qual você problematiza mais as situações do que se encontra dentro do que está sendo contado. Se você quiser uma história genérica e simplória, leia porque a narrativa é simples, fácil de ler (embora o personagem seja extremamente irritante). Mas se você deseja uma história que se aprofunda no assunto que se propõe de forma digna, esse livro não é para você. Esse livro não foi para mim. 

Peço desculpas se em algum momento fui grosseiro, mas é impossível escrever sobre isso sem me inserir, sem buscar meu olhar ainda mais crítico. Sou gay, fora do "armário" e de alguma forma luto todos os dias pelo meu espaço, pelo espaço dos meus. Foi doloroso para mim ver tanto preconceito e estereótipo dentro de uma livro que tinha tudo para ser muito bom.

XOXO,
Diih ♡


Oi, gente!♡

Em maio deste ano postei a resenha de Mr. Mercedes |Leia Aqui|, o primeiro livro da trilogia Bill Hodges, um thriller policial do mestre Stephen King. Em Mr. Mercedes Bill Hodges, um policial aposentado luta para encontrar e prender o assassino da Mercedes, um homem que matou diversas pessoas ao jogar o carro em cima de uma multidão que estava à procura de emprego. O primeiro livro da série foi espetacular e o sucesso se repete em "Achados e Perdidos", o segundo livro da trilogia.

Em Achados e Perdidos vamos conhecer uma história sobre o poder da literatura de mudar vidas - para o bem, para o mal, para sempre. John Rothstein é um autor consagrado, um verdadeiro gênio da literatura e Morris Bellamy é seu fã. Mas o rapaz não está nada satisfeito com o final que Rothstein deu ao seu personagem preferido, tão pouco com a ideia de que o autor se aposentou e decidiu não mais continuar a publicar a história. Por isso, Bellamy decide invadir sua casa e roubar os cadernos que Rothstein guarda com inéditas produções. em seguida decide matá-lo. Depois disso, Bellamy esconde a caixa com o dinheiro que roubou e os cadernos, depois disso vai preso por estuprar uma mulher num bar e a justiça decide dar a ele prisão perpétua. Décadas depois, Peter Saubers, filho de um dos atingidos pelo assassino da Mercedes, encontra os cadernos e o dinheiro justamente no momento em que sua família passa por uma situação financeira ruim. Peter, com apenas 13 anos de idade, saberá imediatamente o que deverá fazer com esse dinheiro, mas sua decisão colocará toda a família em perigo trinta e cinco anos depois, quando Morris sai da prisão (pelo bom comportamento que teve). É então que o detetive Hodges entra em ação junto aos seus ajudantes, Holly e Jerome, para proteger o garoto e sua família da maldade do bandido que ainda mais perigoso e vingativo.

A qualidade da trama de King é incontestável e em Achados e perdidos ela é mantida, seguindo os passos do primeiro livro da série - embora tenha algumas ressalvas a comentar mais a frente. E o grande vilão da história é mais uma vez um rapaz cínico, violentamente frio e cruel. Uma das coisas que o autor sabe fazer é traçar a personalidade dos seus personagens para o bem ou para o mal. Neste caso, Morris Bellamy é um rapaz que vive numa família estruturada financeiramente, mas não tem uma boa relação com a mãe. Na sua adolescência e menor idade sofreu abuso sexual na detenção para menores infratores, o que só aumentou sua ira e alimentou sua característica de pessoa violenta o que facilmente problematiza a questão da punição do menor de idade e quem ele virá a ser no futuro.

O outro personagem, que vai bater de frente com Morris, é Peter, um garoto que vê os pais brigarem o tempo inteiro, principalmente depois que seu pai ficou impedido de andar depois de ter sua perna esmagada pela Mercedes que Brady dirigia. O garoto acompanhava sua irmã durante as brigas, distraindo-a, e de alguma forma, apesar de ser inteligente, tornou-se um garoto frio, mas sem perder a característica "bondosa" que tem, porém sem ser um garoto perfeitamente exemplar.


A narrativa continua sendo em terceira pessoa e também é dividido em partes (Tesouro enterrado, Velhos Amigos e Peter e o Lobo). Aqui temos duas histórias e uma quebra tempo: primeiro a história do assassinato do autor consagrado, John Rothstein e a história do bandido (uma alusão ao lobo) perseguindo o garoto (ironicamente a chapeuzinho vermelho, que saiu do caminho 'certo' para ir por uma trilha que o deixou vulnerável ao lobo) que encontrou o "tesouro" que ele roubou, que é quando envolve nosso detetive especial Hodges e se passa no tempo presente. 

Mais uma vez o leitor está diante de uma história agoniante e cheia de ação, mas contada de forma leve e original - a escrita de King é sublime e causa um feito inexplicável no leitor. Nada é forçado e as situações vão sendo complementadas, as histórias se encontram de forma natural. No entanto, algo nesse livro me incomodou. Durante muito tempo na história o pai de Peter, que foi vítima da Mercedes no primeiro livro (nós só vamos saber disso neste segundo volume), aparece no livro e durante a parte mais intensa ela simplesmente desaparece e não participa dessas cenas finais. A gente sabe onde ele está, mas fiquei inconformado com isso porque gostaria de saber o final dele também. Será que foi esse o sentimento de Morris quando viu o final do personagem em quem se espelhava? Ele simplesmente não aceitou. Ele não queria esse final, ele queria mais. 

Você entende o que King faz com você? Ele insere você de tal forma na história, que você começa a se colocar no lugar dos personagens e fazer parte da história. Mas King também peca, e pecou neste livro com cenas de lutas genéricas demais. Uma das cenas mais importantes e definitivas do livro é bem fraca e se sua escrita causa um efeito grande sobre nós, um dos momentos que poderia ser melhor deixa a desejar. 

Achados e perdidos é mais uma livro brilhante que desloca você do seu mundo real para viver as agonias de uma trama cheia de crueldade, injustiça, e com personagens e situações completamente reais. É a continuação da trilogia Bill Hodges, que antecede o último livro intitulado "Último turno", que já está à venda pela Editora Suma de Letras. Eu indico a leitura e convido você que já leu os dois primeiros livros a fazer essa última leitura comigo. Se ainda não leu, fica o convite para se aventurar e desvendar crimes cruéis, junto a Bill, Jerome e Holly.

XOXO,
Diih