Como você se sentiria ao acordar para o mundo e para você mesmo, na condição de uma pessoa "diferente"/estranha em relação às demais? Você consegue ter uma ideia de como seria ou conseguiria imaginar a sensação de não ser parte do meio; de não ser aceito por não ser "igual" aos outros?
Certamente você não teria ideia de como é se sentir assim. Porque você é parte do meio e você é considerado uma parte normal da história desse lugar, que desde cedo nos disseram se chamar mundo. Certamente você não consegue imaginar como é se sentir excluído porque é você que exclui; não sabe como é se sentir um brinquedo defeituoso porque dentro daquele baú você é perfeitamente aceitável. Mas você gostaria de se colocar no meu lugar e entender minha dor a cada vez que nos dizem que mereço morrer? Seria corajoso ou corajosa a tal ponto? Porque é preciso ser forte para encarar um dedo apontado para você, uma palavra de ódio exclamada ao pé do seu ouvido, uma pancada que deixa marca não só fisicamente, mas também na alma.
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| Essa não é uma imagem autoral. O autor me é desconhecido, a fotografia foi retirada da internet e é meramente ilustrativa. |
Eu nasci em 1990, meses depois, no dia 17 de maio, a expressão "homossexualismo", utilizada para se referir às pessoas que se sentem atraídos pelo mesmo sexo foi desconsiderada. Mas sabe o que é mais engraçado? Eu tinha meses de vida, agora vivo há pouco mais de duas décadas e ainda escuto pessoas se referirem a mim como se eu fosse uma pessoa doente - "olha lá, ele e o homossexualismo dele". Mesmo assim, retirar a expressão do caderno e das ideias dos grandes, como um diagnóstico absoluto, não deixou de ser uma vitória. Estamos caminhando lentamento, não chegamos na metade do caminho, mas já temos nosso escudo. E hoje é mais um dia para utilizá-lo e deixa-lo em evidência. Hoje comemoramos o dia internacional contra a homofobia.
No Brasil, a expressão "homossexualidade" só passou a valer a partir de 04 de junho de 2010.
Sabe o que acho incrível? A afirmação de boa parte das pessoas, quando dizem que temos escolhas na vida e que ser gay é uma delas. Me pergunto se essas pessoas estão dentro de mim ou de quem quer que seja e conseguem sentir de fato como é que as coisas acontecem por dentro. Porque uma coisa é certa: ninguém escolhe sofrer violência, ninguém escolhe ser excluído e ninguém escolhe morrer. Portanto, ninguém escolhe ser gay. É uma condição - vale lembrar.
Sabemos o quanto é complicado conscientizar pessoas e levá-las à compreender os grupos LGBTQs, ditos minorias, quando temos uma construção social taxativa, machista e intolerante. Mas a gente não pode abrir mão disso, por isso decidi escrever esse texto no dia de hoje para que você possa me entender. Sou gay, sim, mas acima de tudo sou um ser humano e que precisa trabalhar para pagar as dívidas. Assim como você. Olha só que engraçado! Temos a capacidade de sentir igual, de se machucar, e temos sangue para sangrar. Além disso, não estamos escapes de qualquer tipo de sentimento, portanto em que sou diferente de você? Pelo fato de me voltar para o amor de alguém que tem o mesmo sexo que eu? Com certeza isso não muda em nada na sua rotina, afinal você não depende dos meus sentimentos ou da minha vida para para viver. Eu também não dependo da sua.
Não encare esse texto como uma afronta, mas como um convite à reflexão. Entenda que não podemos julgar o sentimento dos outros quando não conseguimos explicar os nossos. E entenda que a solução não é aceitar ou deixar de aceitar: é se permitir colocar-se no lugar do outro e compreender que ninguém precisa pedir permissão para ser quem realmente é.
A Psicologia na luta contra a homofobia.
Hoje comemoramos o dia internacional da luta contra a homofobia. Mas somente um dia de conscientização não é suficiente para falar dos seres humanos que sentem na pele e na alma, a dor, o medo, a indiferença e o preconceito de uma sociedade carente de amor, escassa de escuta, de afetividade, compreensão e empatia. Por sinal, Empatia é um assunto muito falado hoje em dia, mas muito pouco praticado, infelizmente. Os seres humanos nascem com tendência a serem empáticos, pois somos seres sociáveis e precisamos do cuidado do outro para sobreviver. E esse cuidado está para todos, independente das escolhas, histórias de vida, da educação, da cor da pele.
Que tal se você começar hoje a se questionar, a olhar um pouco mais para dentro de si, colocar uma dor que você sente em silêncio, para fora? Que tal pensar naquela situação de bullying que você viveu na escola? O quanto isso doeu, você consegue lembrar? Todos nós já fomos "atacados" por alguém de alguma forma, e temos essas marcas em nossas almas. Agora coloque-se no lugar daqueles que sofrem isso todos o dias apenas por levarem estilos de vida diferentes dos seus, por fazer escolhas diferentes das suas; e até mesmo aqueles que são agredidos e os que, infelizmente, são mortos.
Todos merecem ser respeitados em suas condições de vida. Praticar a empatia, colocar-se no lugar do outro e buscar o auto-conhecimento é a melhor maneira de termos um mundo mais amoroso e respeitador, com pessoas que reconhecem a diversidade e a pluralidade do lugar onde vivemos. O psicologo é o profissional apto para ajudar na busca pelo auto-conhecimento. E a psicologia honra o compromisso no combate às opressões, sobretudo à homofobia e o machismo, garantindo, então, o compromisso que a psicologia tem com os Direitos Humanos.A segunda parte dessa publicação foi escrita por Milena Sallenave, psicóloga/ psicoterapeuta de família/ Educadora Perinatal. Milena tem 27 anos, nasceu em Salvador-Ba, onde também exerce sua profissão.Bjão, com carinho ♥️
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