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12 de agosto de 2015

{Resenha} Passageiro do fim do dia, Rubens Figueiredo



Ei, vocês!
Um i cheio de carinho a todos.

Chegamos ao quarto dia da semana e quarta-feira é dia de resenha aqui no Vida & Letras. Portanto, trago hoje para apresenta-los, um romance da Companhia das Letras ( puro amor por essa editora!), escrito por Rubens Figueiredo, que é tradutor e professor de português, formado em letras na UFRJ.


***
O passageiro do fim do dia conta a história de Pedro, um rapaz que todos os finais de semana segue para a casa de sua namorada, quando termina o expediente no trabalho. Rosane o aguarda nos finais de semana, no Tirol, bairro periférico da cidade onde mora. A narrativa se passa dentro de uma lotação e se desenvolve a partir da consciência do rapaz – o Pedro -, que apesar de distraído, consegue capturar detalhes e situações sobre o que está acontecendo ao seu redor. Com um radio no ouvido e um livro que conta a história da passagem de Charles Darwin pelo Brasil, Pedro vai questionar e adquirir uma visão de mundo mais crítica depois daquela viagem.

(♥)
“Toda hora é hora de avançar na escala evolutiva, subir mais um degrau. É mesmo impossível ficar parado e, qualquer que seja a direção em que as pernas começam a andar, o chão logo toma a forma de uma escada. Além do mais, é preciso reconhecer: sem mal-estar, sem adversidade, sem um castigo sequer, como se pode esperar que haja alguma adaptação?”
(♥)

Quando a professora me apresentou uma lista de livros para que eu pudesse escolher um deles e trabalhar na aula de literatura nacional, logo me interessei pelo título da obra de Figueiredo. E no final de tudo eu realmente me sinto orgulhoso por ter feito essa escolha porque foi uma das melhores leituras que já fiz na vida. O autor criou um cenário familiar e narrou o percurso de Pedro de maneira divina. Enquanto lê as páginas do livro você sente como se fosse o próprio personagem vivenciando aquela experiência, passando pelas ruas descritas e pelas situações observadas.

“Sabia que, para muitos passageiros, aquele seria o segundo ônibus em sua viagem diária de volta para casa. Sabia que a mulher com aparência de uns sessenta anos, mas que devia ter só uns quarenta e três, com cinturões de gorduras nas costas que marcava profundas pregas na blusa, não tinha os dentes incisivos na arcada inferior. E sabia que ela trazia dentro da sacola, sem abarrotada, uma Bíblia encapada em plásticos transparentes, que ia abrir e ler no seu banco do ônibus, durante a viagem de mais ou menos uma hora e meia.”
(...)

O livro não é dividido em capítulos, não há pausas e ainda que você pense que será cansativo e chato, por esses motivos, se engana. O leitor é puxado por mais uma observação, mais um questionamento, mais uma situação dentro do ônibus e então vai lendo, e lendo... Até perceber que não é preciso divisão de capítulos porque ele te leva junto pela viagem, mostrando, através dos detalhes, a competência da narrativa e o quanto a história funciona bem dessa forma.

Passageiro do fim do dia sou eu, é você. Quem nunca fez uma viagem que, normalmente duraria meia hora, em mais de uma? Quem nunca pegou um engarrafamento grotesco e um protesto pelo meio do caminho, enquanto viaja de pé, mesmo cansado de um dia de trabalho?  O que acontece com Pedro durante o percurso? Será que ele consegue chegar ao destino desejado?

Assim como o colunista Marcos Pasce publicou em 2011 no site do jornal gazeta do povo, reafirmo que O passageiro do fim do dia é “um romance necessário”, que nos mostra, através da literatura, uma janela que nos permite enxergar as mazelas urbanas, aguçando nosso poder de questionamento e nossa visão crítica do mundo.

Espero que tenham gostado do livro e espero que leiam esse texto lindo, que foi lançado em 2010.

É isso!
Até logo,

Bju, bju do Diih.  

19 de maio de 2012

O recitar



***

Num pedaço de espelho partido ela se olha e torna pintar o rosto de branco. Uma textura de tinta desconhecida, de efeito satisfatório, embranquece a sua face. Num cantinho escondido da rua escolhe sua melhor roupa (ainda que haja um rasgão nos panos), coloca seu chapéu, sua bolsa, até então vazia, e segue seu rumo.

O primeiro ônibus vem passando e, de longe, ela pede a parada. Entra, cumprimenta os passageiros com um bom dia feliz e espontâneo. Do barulho percebe-se o silêncio das vozes que se calam para olhar e ouvir aquela garota tão animada e encantadora. E tinha um talento admirável! Pobre de materiais e bens que deveria ter, por direito, rica de palavras e gestos, é dona de uma voz altiva e encantadora.

Na primeira parada inicia-se o recitar interpretando uma poesia de Carlos Drummond de Andrade. E continua a viagem... No próximo ponto recita uma poesia que fala de sertão. Não se sabe o autor - talvez seja de sua própria autoria -, mas ainda assim, o público não recolhe aplausos e a satisfação nos olhos da grande atriz é brilhante.

Agora ela passa o seu chapéu. A menina que veio do Ceará tentar a sorte em um lugar desconhecido colhe o reconhecimento de seu trabalho. O barulho das moedas representam contentamento, o prazer e admiração dos passageiros. Mas então a porta da frente se abre e ela desce no próximo ponto, entra numa outra lotação e segue adiante com sua alma rica e cheia de luz. Vai embora com a maior riqueza de sua vida: a riqueza da alma. E eu vou seguindo o meu caminho pelos pontos da cidade esperando encontra-la, outra vez, para mais um recitar.


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