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17 de abril de 2018

Amorzices: O mar, eu e ela



Olá,

Há muitas histórias sobre as quais eu poderia contar - acreditem, tenho muitas -, mas penso que estou vivendo um momento em que ele precisa ser marcado de alguma ou de várias formas e acontece que, no mês em que decidi participar do Amorzices, idealizado pelos Blogs Serendipity, Desancorando e Sernaioto, eu registrei essa imagem, que casou perfeitamente com o tema do mês.

Se você olhar para essa fotografia - um sombreiro, e o mar no fundo - provavelmente pode pensar que é apenas mais uma daquelas imagens que a gente faz para registrar o momento. Mas para mim é mais que isso, tem um valor muito maior do que se pode imaginar. Eu achei linda, mas a beleza do momento faz dessa imagem algo memorável para mim e muito especial. ♥️

Uma das coisas sobre as quais você talvez não saiba é que em 1996, quando eu tinha seis anos de idade, me separei de minha mãe, que teve que morar em São Paulo por conta de nossas condições de vida. Não éramos pobres a ponto de passar fome, mas não vivíamos "leves" como hoje. Ela havia se separado do meu pai, morava com os pais e não estava conseguindo dar conta de tudo sozinha. Eu fiquei, ela foi; eu fui, depois voltei - moro em Salvador. Mas essa é uma história que pretendo contar depois numa postagem especial sobre a infância. Vai ficar lindo, me aguardem. 

Voltando ao que interessa. A última vez que estive com minha mãe foi no ano de 2013, quando fiz uma viagem de um mês para São Paulo. Depois disso, até então nunca mais havíamos nos encontrado e a saudade era tamanha, você não tem ideia. Porém, neste mês de abril (ah, outono!) ela ficou de férias do trabalho e decidiu fazer uma surpresa: no domingo, 08, a recebemos aqui em casa, e foi uma felicidade tão grande que não coube em mim. Se Deus sabe o que faz? Não tenho dúvida. Afinal, há pouquíssimo tempo perdi um tio num acidente e estava num período de luto, triste pelo acontecimento trágico. Depois disso Deus me preparou essa surpresa incrível para me deixar mais leve.

No último domingo, 15, acordou um sol lindo e ela me pediu para ir à praia. Fomos somente nós dois. Foi um momento único porque até então estávamos sempre rodeados de várias pessoas e nesse dia foi somente eu e ela. Passeamos pelo farol da Barra, tiramos fotos, comemos acarajé, sentamos e depois fomos para a frente do mar e ficamos lá contemplando as ondas. Ela quis entrar no mar, depois de eu levantar da cadeira e bater a cabeça na ponta do sombreiro. Foi um motivo para ela rir e tirar muito sarro de mim - minha mãe é muito menina, tem um espírito bem animado. Ela riu tanto, fez tanta agonia, que eu acabei rindo de bater a cabeça e a dorzinha foi até esquecida. Nesse momento, ela disse que ia para o mar e que queria tomar um banho. Foi então que decidi tirar a foto do sombreiro. Por detrás dela estava eu sorrindo feliz, vendo as ondas derrubarem minha mãe - que ria e corria delas - numa junção de amores que me fortalece. A cada vez que ela caia, levantava rindo, eu ria de cá e ela se jogava mais ainda. Ela está(va) feliz, e isso é lindo de ver.



Eu amo o mar. E neste momento era o que eu tinha, o que precisava. Era eu, o mar e ela. E toda a felicidade do mundo. A saudade sendo levada embora, a amizade forte que nos liga, os risos que fizeram nossa boca doer; e a foto para deixar marcado esse momento. No próximo domingo ela vai embora, e possa ser que demoraremos de nos ver novamente. Mas mesmo longe sempre estamos perto. Um amor que não se mede. 

Essa é um blogagem coletiva da qual você também pode fazer parte. Amorzices é um projeto mensal, publicado todo dia 15 pelo trio amorzinho Serendipity, Desancorando e Sernaiotto e que terá um tema base: o amor. A partir daí, a gente vai falar sobre um monte de coisas. O tema de abril é a história por trás de uma foto.

16 de maio de 2015

[AUTORAL] Claridade da luz



Esta foto é do meu arquivo pessoal e não pode 
ser usada para outras publicações. 
Diego França © 2015
 *.*.*
Olhando aqui de dentro é tudo tão claro que às vezes me doem as vistas. É tudo muito nítido e em cores igualmente trabalhadas e distribuídas que eu posso facilmente me locomover, mesmo que haja uma tentativa ousada de fechar os olhos e apagar as luzes. É tudo tão claro que mesmo com as luzes apagadas saberia o caminho de volta para minha cama. Conheço o que tem no chão, em que posso tropeçar; conheço o que está no meio e o que posso derrubar ou não.
Vejo um lustre enorme preso ao teto e as lâmpadas atreladas a ele também estão por lá: quentes, iluminadas, cada qual em seu lugar fazendo seu papel.
 Assim como toda a imagem clara do ambiente posso ver fotografias espalhadas pela casa em porta-retratos e em quadros presos nas paredes. Até consigo me ver claramente inerte, vestindo uma camiseta larga cobrindo todo o meu corpo, enquanto estou sentado de pernas cruzadas na cama. Chove lá fora. O único som que escuto aqui de dentro é o barulho da chuva forte batendo nos vidros da janela e no telhado da casa. É um barulho ensurdecedor. Incômodo. Não me deixa dormir um pouco mais. Sinto meus braços cansados. Eles doem agora. Parece que dormi um dia inteiro por cima deles, de olhos abertos, sob a luz e não percebi. Simplesmente não senti. Procuro. Olho para um lado e para outro. Essa claridade parece querer me cegar.
Um som. Escuto um som que vem lá de fora. Estrondoso. Acho que o teto vai desabar sobre mim. Um trovão. Sim, um trovão acima da minha cabeça acompanha a chuva e a ventania. Então, para de repente. Ora mais forte, ora mais calma. Um ritmo frenético, uma melodia que já não quero escutar. Parem! Eu não quero, não posso! Preciso dormir um pouco mais.
Me levanto da cama e piso o chão gelado. Parece que derreteram gelo aqui e todos os ossos que sustentam minha carne ameaçam se quebrar. Um passo, dois passos. Lentos, lentos... len... tos! Quase caio. Será que a claridade é muito forte, o suficiente para paralisar o meu corpo dessa maneira? Será que o frio é parte do plano?
Com muito esforço consigo chegar à janela que tanto desejei. Representa a liberdade da luz exagerada que me afetam as vistas. Eu queria estar ali na mesma janela onde costumo ver o horizonte. E assim acontece. Abro as cortinas, afasto os vidros e cadê? Não há horizonte. Parece que toda luz está aqui dentro. E lá fora já não há. Vejo um breu, a escuridão. É tudo o que vejo. Apenas o céu cinzento.
Onde está a claridade do horizonte que contemplo? Será que estou louco ou as cores são gris neste lugar? É tudo muito feio. Não quero! Não posso! Me deixem andar, soltem-me os braços. Quero correr! Você não percebe?!  Quero me livrar dessa visão apagada, desse nada que vejo aqui de dentro.
Preciso de forças, mas meus braços não conseguem fechar a janela que agora me abre um caminho terrível. Mesmo assim não desisto. Estou sem forças, porém sou mais forte que isso. Digo a mim mesmo: “vai, você consegue. Agora!”. Grito. Estou me afastando, correndo, estou fugindo de você, fugindo do meu passado, me distanciando desse breu para me banhar na claridade que existe dentro de mim. Corro em meio a gritos abafados e o caminho parece distante. Estou voltando de onde não deveria ter saído. Quero meus pés de volta a cama. Estou tentando alcançar a claridade outra vez.

Diego França © 2015 
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