Há muito tempo li em algum lugar a frase "Ninguém nasce herói" e fiquei me questionando o por quê dessa afirmação tão óbvia. Nunca consegui me lembrar onde e em qual contexto escutei/ li isso, mas depois que recebi a prova antecipada do livro escrito pelo autor e tradutor Eric Novello pude voltar a esse questionamento e agora tenho finalmente uma resposta, que talvez não seja a mesma da afirmação vista anteriormente, mas que dá conta de instalar na mente do leitor um bom motivo para uma reflexão.

"Ninguém nasce herói. Mas isso não nos impede de salvar o mundo de vez em quando."

A frase acima foi uma das que mais me cativaram na história escrita por Novello. Ninguém nasce herói foi lançado ontem, dia 14 de julho, pela Editora Seguinte, selo jovem da Companhia das Letras. O livro apresenta todo um cenário caótico onde o governo e a intolerância por boa parte das pessoas impedem as pessoas de serem quem elas são e tenta retirar delas a liberdade de pensamento e do hábito de leitura.

Estamos à frente do nosso tempo e o Brasil é liderado por um fundamentalista religioso, o chamado "Escolhido". Nesse cenário, o ato de distribuir livros na rua é uma afronta para o governo, mas foi justamente esse modo resistente que Chuvisco encontrou para tentar mudar a realidade. Com o apoio dos amigos o garoto segue para a praça Roosevelt, no centro de São Paulo, e juntos começam a entregar exemplares de livros proibidos pelo governo - sempre atentos para o caso de aparecer algum policial pelo local. Mas esse não é o único perigo que Chuvisco e seus amigos precisam enfrentar nessa juventude caótica. Há também, na cidade, algumas milícias urbanas, como a Guarda branca, por exemplo, cujos integrantes perseguem as minorias, agridem e até matam com o incentivo do governo. Certo dia Chuvisco presencia esse ato violento quando vê o grupo espancando um rapaz nos arredores da rua Augusta. Nesse momento, o jovem age como um super-herói para tentar ajudá-lo, e então percebe que vai precisar de muito mais do que distribuir livros se quiser realmente mudar seu futuro e o futuro do país.

Ninguém nasce herói nos apresenta a visão de um possível futuro para o Brasil, mas é notório que muito dos problemas abordados no texto já foram vistos ou vivenciados por nós, às vezes de maneira explícita, outras de forma maquiada. Se a leitura é capaz de aguçar nosso intelecto e desenvolver no leitor o senso crítico, é pertinente para a classe dominante que os menos favorecidos não tenha acesso à leitura. Daí a proibição d'o escolhido, no enredo da história; está aqui uma realidade velada, mas existente no país Brasil atual.
"O que mais dói são os que se afastam por medo, como se estivéssemos distribuindo armas de destruição em massa. Talvez estejam certos." (Pág.: 12)

A questão política e cultural, do racismo e da intolerância religiosa é uma constante na história, que também envolve o leitor no mundo fantástico, através da catarses criativas do personagem Chuvisco, nosso protagonista. Uma ideia plausível se as descrições das  cenas provocadas pelas catarses não deixassem a desejar. Elas não conseguiram me tirar do mundo real, não apareceram com clareza para mim e não provocou empatia. E sobre a empatia com os personagens também posso dizer que não houve.

Apesar de estar diante de uma narrativa agradável, uma ideia de texto especial e com reflexões pertinentes desejei mais dos personagens, Chuvisco merecia ser mais forte (não no sentido da força, mas no sentido de representar bem um protagonista), seus amigos também não se apresentam com clareza e se fazem personagens fracos. Uma história com um tema rico, inteligente e necessário merecia personagens mais fortes e diálogos também mais atrativos. Em vários momentos eu não os encontrei.

 Mas nem só para pontos negativos está esse texto. A "pintura" da amizade, a união e beleza desse sentimento lindo está muito bem colocada aqui, principalmente porque uma das mensagens do livro nos diz que a gente deve lutar junto, que é preciso esquecer as angústias, mágoas e amarras para seguir em frente numa luta eficaz para vencer. Num mundo caótico como esse a paz e o amor precisam mais do que nunca estar de mãos dadas.

Outro ponto interessante e pertinente é a questão do comodismo e do medo que existe na vida de boa parte das pessoas. Elas que se sentem intimidadas, com medo de perder o pouco que tem com a luta, de se expor, de falar, de questionar e levantar a voz. Uma crítica a quem se cala, uma mensagem implícita que diz ACORDE, REAJA, LUTE!
"O problema é que o "basta" abre as portas para o desconhecido. E, hoje, o desconhecido causa medo. Infelizmente, é essa a nossa cidade. Desperta para a rotina louca do trabalho, narcoléptica para todo o resto." (Pág.: 09)

Se a ideia é tocar o leitor, beliscá-lo, fazê-lo ficar de pé e atento ao nosso papel na sociedade as reflexões de "Ninguém nasce herói" funcionam bem. Retirando todos os diálogos que não são atraentes e esquecendo o querer de um personagem principal mais forte e vivo, ficamos com um texto que questiona o por que de sermos tão acomodados na vida, bem como na questão social e política. E esses são questionamentos que não podem ser deixados para depois. Você pode ser herói sim.

We can be heroes for ever end ever.

Bjux,

12 comentários:

  1. Oi Diego!

    Li algumas resenhas sobre o livro, e todas foram positivas, coloquei na minha wishlist e por sinal no topo para as próximas compras! rsrsrs

    Parabéns pela resenha ficou ótima, sua opinião e concepção do livro são interessantes.

    PS: David Bowie is king II, because Michael Jackson is the first. (I loved the reference) <3.

    Grande abraço,
    www.cafeidilico.com

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  2. Oi, Diegoooo!!

    Parece que não estou sozinho, também não me conectei com os personagens e achei as cenas de ação muito fracas. Apesar disso, a parte política é muito bem pensada e INFELIZMENTE prestes a se tornar realidade. Gostaria de ter curtido mais essa história.

    Ótima resenha, mais uma vez <3

    Abraço!!

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  3. Oi, meu rei

    Que bom, apesar das pequenas ressalvas, que Ninguém Nasce Heroi te tocou de alguma maneira. Eu gosto de livros que retratam um possível futuro da humanidade, mas não tenho certeza se eu teria uma experiência agradável... gosto de livros assim com teor mais adulto, sabe?
    Excelente resenha!

    Beijos
    - Tami
    http://www.meuepilogo.com

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  4. Oi, Di!
    Menino, eu morria e não sabia que esse livro era nacional.
    Logo no começo da resenha, eu pensei "ué.. mas é isso que estamos vivendo". Tenso demais quando me deparo com coincidências assim.
    Beijos
    Balaio de Babados
    Participe do Sorteio de Férias: cinco livros, um ganhador!

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  5. Interessante. Já tinha visto falando desse livro por aí, mas é a primeira resenha que leio dele. Parece ser uma história bem interessante, carregada de coisas que nos fazem pensar sobre nossas próprias atitudes e coisas do cotidiano. Gosto do tipo de história que nos abrem questionamentos. Achei a capa legal e o título bem convidativo à lermos :)

    www.vivendosentimentos.com.br

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  6. Oi! Achei o livro com uma pegada bem militante, passando uma mensagem de liberdade e busca dela. Com certeza é um livro para nos mostrar coisas boas e fazer pensar na sociedade e como estamos vivendo nela. Bjos <3

    Click Literário

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  7. Olá! Adorei a sua resenha e gostei muito do assunto que é abordado no livro. Somente pela forma como você escreveu, eu fiquei com muita vontade de ler esse livro pois através do que li agora eu senti o que ele deseja transmitir. Parece ser um livro muito interessante :)

    Conceito Aberto

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  8. Olá, Diego.
    Em primeiro lugar parabéns pela resenha, está ótima. Eu não conhecia esse livro ainda e não sei se quero ler ele. Fiquei a resenha toda mudando de ideia. No começo me interessei bastante. Gosto de livros que se passam no Brasil e mesmo sendo num futuro, aborda temas que já acontecem. Mas depois com os pontos negativos que você levantou, mudei de ideia. Agora fiquei na dúvida hehe.

    Prefácio

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  9. Oi, Diego!
    Você leu rápido demais, faz muito tempo que não faço uma leitura rápida. Eu gostei muito da capa e esse broche é lindo demais, mas pelo que tu disse não sei se leria. Mas a trama parece ser interessante!

    Beijos,
    ahamare.blogspot.com

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  10. Oi Dih, tudo bem? Acho que os temas abordados no livro são super atuais! E se a narrativa mexe com a gente e causa algum impacto, já acho que vale super a pena conferir, mesmo que os personagens não sejam tão bem explorados. Gostei bastante da dica!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  11. Hey, Di! Tudo bem?
    Nossa, eu não conhecia o livro, mas fiquei chocada com o tema abordado e a maneira como foi abordado. Achei o enredo muito interessante e atraente. Leria com certeza! Mas esse fato dos personagens não causarem empatia é bem chato né? Eu não consigo acompanhar uma história, se os personagens dela não me cativarem. De qualquer forma, sua resenha ficou tão boa, que eu vou dar uma chance para a leitura hihi.
    Mil beijokas - Entre um Livro e Outro

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  12. Olá Diego, gostei bastante da premissa do livro e sua resenha intensificou ainda mais a vontade de realizar essa leitura. O tema proposto é bem crítico ao nosso cenário atual, acredito que será um livro que ao término irá deixar muitas reflexões para serem feitas. Ótima resenha, abraço!

    Carpe Diem Literário

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