Minha última dança

Há um som vindo lá de dentro. Alguém está tocando uma música alta, um 'mix' qualquer, que não me diz algo que deveria dizer. Mesmo assim não importa, não vejo clareza no que gostaria de escutar agora. Luzes piscam coloridas num ritmo frenético, posso ver aqui de fora, enquanto uma multidão grita eufórica.  Corpos suados se cruzam, encostam uns nos outros. Vejo pessoas se beijando, ao mesmo tempo que dançam a setlist do DJ. Estão enlouquecidos, com o ânimo à flor da pele, como se não houvesse o amanhã.

Alguns preferem entregarem-se a um copo de bebida, outros optam por uma fumaça de cigarro - até  brincam com os desenhos que formam no ar. Uma quantidade considerável de gente faz morada na pista e, por mais que o ar esteja ligado, o calor toma conta. O vapor de gelo agora apaga toda a minha visão, me incomoda. Muito. No entanto, eu estou no meio disso tudo porque escolhi estar aqui.

Estou sentado no último degrau de uma escada, na parte de fora da festa. Observo as pessoas que entram e saem enquanto um funk e a sua batida começa a gritar em meus ouvidos. Em minha frente um casal se beija - me parece que acabaram de se conhecer. Eles conversam,  provavelmente,  suas afinidades e discutem suposições. Voltam a se abraçar, e beijar, e sorrir. Num degrau mais abaixo aparecem duas meninas, amigas, discutindo se uma delas deve ou não ligar para o ex-namorado. Então ela pega o telefone e disca o número. Para uns segundos –  enquanto completa a chamada – até que alguém atende a chamada. Parece paciente porque, aos berros, ela grita e a chamada não cai. Com toda fúria a garota despeja tudo o que ele fez, o dano que causou e diz algo sobre ‘você partiu meu coração’. E esse algo me leva a pensar em quantos corações partidos podem existir nessa festa.

A discussão das meninas continua. Não parece que vai terminar agora. Volto a olhar ao meu redor e desvio o pensamento.  Na verdade não penso. Ou penso? Seja lá o que for comparo o ambiente de hoje com aquele de um mês atrás quando eu estava do outro lado da pista, recebendo uma atenção especial, numa comemoração diferenciada. Não havia o que pensar a não ser viver a festa e sorrir.

Permaneço sentado e já não sei em qual degrau da escada estou. Parece que alguém pediu licença me guiando a outra escada, num lugar mais alto. Aqui está ventando muito frio e isso me obriga a analisar o meu objetivo de estar aqui esta noite porque uma noitada como essa – com música alta, muita bebida e êxtase – pode servir como fonte de escape para qualquer um, porém, para mim, não tem o mesmo efeito, sabe!? E não importa se a festa está lotada nem importa onde eu estou agora. Meu corpo está aqui, o meu pensamento não. Deve estar vagando em algum lugar nessa cidade grande, em algum lugar que desconheço.

Subitamente alguém me chama, acena para mim e me tira a atenção. Volto ao mundo, volto a estar aqui, a ser hoje, a ser agora. A realidade me convence a lhe dar as mãos. O som alto continua a se espalhar porta a fora. Me levanto. Começa a tocar uma música especial. Alguém está me convidando para dançar e eu rejeito. A música que está tocando agora é aquela que dancei da última vez, com outro par, alguém não mais presente nesse lugar.  Rejeito o convite para dançar e percebo que essa não é mais a minha música, esse não é o meu lugar.

2014 © Diego França



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